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Cinema provocação de Sérgio Bianchi

Segunda-feira, 28/4/2008
por João Luiz Vieira*


 

O cinema de Sérgio Bianchi sublinha de forma contundente o tom pessimista e amargo encontrado em todos os seus filmes. Em Quanto vale ou é por quilo? (2005), por exemplo, dando prosseguimento a uma obra marcada pelo desconforto e desencanto com o País, Bianchi radicaliza a agressão proposta por sua abordagem audiovisual de algumas de nossas mazelas – aqui uma visão nada positiva da solidariedade institucionalizada de uma (e de muitas outras) ONG, cujo objetivo maior, disfarçado de assistencialismo, é o assalto ao dinheiro público.

Se em A causa secreta (1994) o que se apontava era exatamente o fim da solidariedade, Quanto vale...? chega ao fundo de um interminável poço, no qual a possibilidade de solidariedade já não existe mais, transformada em mercadoria rentável no jogo propositadamente confuso entre o inescrupuloso acesso a recursos públicos e a falta de controle social deles. Construindo uma narrativa não-linear que superpõe diferentes tempos e espaços, Bianchi tece uma trama que mistura o passado ao presente e amplia o sentido histórico de uma teleologia de causa e efeito, que junta o Brasil do século XVIII aos dias atuais. Assim como A causa secreta, Quanto vale... ? também é inspirado na ficção de Machado de Assis (o conto Pai contra mãe, publicado em Relíquias da casa velha, 1906) e em diversos documentos encontrados no Arquivo Nacional. Uma vez mais ficção se mistura com documentário; uma vez mais acaba sendo mais produtivo ver os filmes de ficção de Bianchi como documentários. Ou um documentário como Mato eles? (1982) como obra de ficção.

Como era de se esperar e apesar das diferenças – em especial nos valores de produção e no seu acabamento final – Quanto vale... ? traz ecos do longa anterior, Cronicamente inviável, lançado em 2000 com pouquíssimas cópias, em meio a todo o carnaval oficial preparado para a celebração dos “500 anos de Brasil”. Apesar desse ultra modesto lançamento, Cronicamente inviável surpreendeu pelo sucesso alcançado, em especial junto a um público jovem, permanecendo meses em cartaz e provocando muita polêmica.

Junto com o curta Divina previdência, realizado em 1983, os três filmes reforçam a urgência de um cinema de confronto e provocação, em especial no panorama atual em que o cinema brasileiro anda cada vez mais comportado. Tanto Cronicamente quanto Divina previdência e Quanto vale... ? exibem, e muitas vezes gritam, a preocupação constante com a representação da realidade social e política do País, num cinema constituído pelas fraturas do tecido social de um mundo degradado ecologicamente, como mostram as imagens impressionantes da floresta amazônica sendo queimada em Cronicamente, ou povoado por personagens acuadas e submetidas a massacres cotidianos, como o desgraçado indivíduo em busca de atendimento nas filas e na burocracia do sistema público de saúde em Divina previdência. Um cinema que também não tem medo de expor ao ridículo figuras que, independente de política, são detentoras de um poder corrupto e institucionalizado, num acúmulo de tipos e situações que explodem, de forma esgarçada, a linguagem do mundo organizado.

Nascido em Ponta Grossa, Paraná (1945), Sérgio Bianchi pertence a uma geração intermediária entre os realizadores pós-Cinema Novo, mais próximos do chamado “cinema marginal”, que surge entre as décadas de 1960 e 1970. Sua filmografia compreende, desde 1972, quatro curtas-metragens, o excepcional média-metragem Mato eles? e cinco longas. Marcado pela aguda e urgente necessidade de questionar o país em suas mazelas, o trabalho de Bianchi vale-se de uma linguagem que torna possível a representação do que vivenciamos como “Brasil”. Para tanto, torna-se imprescindível apagar as fronteiras entre o que se convencionou classificar como ficção e documentário. Importante é frisar que, de um modo ou de outro, seu cinema vem desafiando convenções de todo tipo, em especial aquelas que promovem o realismo – social ou mágico – invocadas sempre que se pretende representar os dilemas latino-americanos.

Em diferentes chaves, assiste-se a um cinema da distopia, no qual o desencanto acompanha a reflexão enviesada sobre tudo aquilo que não deu e nem dá certo. Nesse desconforto geral, o espectador é constantemente interpelado por meio de personagens que se dirigem diretamente à câmera ou é convidado a participar de um questionamento sem saída proposto pelos improváveis testes de múltipla escolha, como no média-metragem Mato eles?. O espectador se vê confrontado com um clima geral de derrotismo, provocação e antítese, num caminho perverso, como tentativa de alterar a situação, uma forma radical de provocar mudanças.

A intenção, como deixa bem claro o primeiro plano de Cronicamente inviável, é incendiária: o fogo ateado a um ninho de vespas prepara o espectador, de certa maneira, para o que virá pela frente. A estrutura episódica encontrada nesse filme parece sempre servir de pretexto para mostrar um universo maior, espécie de colagem de microcosmos de histórias e motivações pessoais que inter-relacionam corrupção política, agressão ecológica e poluição; relações trabalhistas e empreguismo; asfixia da classe média e todo o tipo de injustiça social; especulação imobiliária e favelização; êxodo rural e miséria; violência urbana, infância e juventude desassistidas; a falência do sistema público de saúde; repressão sexual e falta de solidariedade. Tudo embalado por uma agressividade que busca vencer a indiferença e a apatia reinantes. Mas há espaço, também, para o humor, ainda que organicamente corrosivo e irônico, ainda que o riso provocado seja um riso de tom francamente “amarelo”.

Boa parte do estilhaçamento e da fragmentação apontados nos filmes origina-se na própria tensão proposta pela colagem de estilos diferentes e conflitantes, passando pelo confessional (recurso da voz “off” em primeira pessoa), pelo burlesco,pela paródia, pelo terror, pelo documentário de viés ufanista, e pelo histórico de caráter didático. É essa forma paródica e freqüentemente interpelativa que acaba sendo visionária ao antecipar, no final da década de 1980, o estilo consagrado pelo premiado Ilha das flores, de Jorge Furtado (1989). A ironia e a ambigüidade presentes em títulos como Divina previdência ou Cronicamente inviável encontram eco na crueldade anárquica do desencanto, da raiva e de uma certa impotência diante do inexorável.

 

* João Luiz Vieira é professor do Departamento de Cinema e Vídeo e atual Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense. Autor de, entre outros, Câmera-faca: o cinema de Sérgio Bianchi, publicado em Portugal em 2004 pelo Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira.

 

texto publicado na segunda edição da Revista da Programadora Brasil – abril 2008, págs 36 a 39.

 


         
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