Quando a forma assimila os dramas da História
Assistir a Deus e o diabo na terra do sol (1964) é conhecer um marco do cinema moderno – essa constelação extraordinária de filmes realizados, a partir do neo-realismo, pelos Cinemas Novos de distintos países, quando uma geração formada em cinematecas abraçou a reinvenção do cinema. E o fez em conexão com o espírito crítico e as utopias políticas que mobilizaram a juventude que então emergiu no papel de ator histórico como nunca fizera. Glauber Rocha não tinha ainda 25 anos quando completou esse filme de impacto decisivo no Brasil, obra de referência que o afirmou como grande cineasta daquela constelação moderna. Tal impacto e afirmação tiveram razões de ordem política e de ordem estética – Deus e o diabo é um encontro feliz destes dois terrenos. Inventa-se aí um estilo de fazer cinema que inscreve na própria forma – câmera, montagem, luz, direção – os dramas da história. Como um cinema de poesia, ele “faz sentir” a câmera que explora a textura dos corpos, a caatinga. E o sertão aí se transfigura para abrigar os grandes temas da vida coletiva que não cabem num cinema naturalista.
Sim, há o olhar documental da câmera, mas os espaços abertos e os corpos que ela percorre não registramações cotidianas. Tornam-se palco e fisionomia articulados para compor uma cerimônia. Estamos no teatro, mundo em que poucas figuras condensam os grandes temas. E seguimos as estações da jornada de Manuel e Rosa, seu encontro com o líder religioso e o cangaceiro. Cada qual, a seu modo, encarna o aceno de esperança expresso no refrão – “o sertão vai virar mar, o mar virar sertão” – que pontua a figuração das revoltas camponesas. É preciso legitimar tal violência, pois é busca de justiça. Mas a complexidade da questão requer uma convivência dos contrários que vem compor o estilo barroco de Glauber, sua estética, sua política e sua forma de inserir o cinema no debate sobre o sertão e o País, que envolve as ciências sociais e a tradição literária.
No tema geral, Glauber dialoga com Euclides da Cunha e José Lins do Rego; no estilo, traz para imagem e som os experimentos de outro expoente barroco na figuração do sertão: Guimarães Rosa. Dá notícia, então, do que era de ponta na criação, sem perder o empenho no debate de questões sociais que permanecem atuais: a relação entre política e messianismo religioso, desigualdade e territórios de violência endêmica (hoje urbanos), modernização e questão agrária. Um título que expõe o vigor do Cinema Novo brasileiro e mostra a que veio a Programadora Brasil.
* Ismail Xavier é professor da ECA-USP e autor do livro Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome (Cosac & Naify, 1983)
texto publicado na segunda edição da Revista da Programadora Brasil – abril 2008, págs 34 e 35.