1. Breve história recente do Movimento Cineclubista Brasileiro
Depois de anos desmobilizados enquanto movimento da sociedade civil organizada – mas tão atuantes quanto desconectados entre si – os históricos cineclubistas brasileiros se encontraram com novos cineclubistas na chamada Jornada de Rearticulação do Movimento Cineclubista, em novembro de 2003, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro daquele ano. O encontro aconteceu por iniciativa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, representada pelo secretário do audiovisual Orlando Senna e seu, na época, chefe de gabinete Leopoldo Nunes.
Durante o ano seguinte ao primeiro encontro, uma comissão formada por cineclubistas de todas as regiões do Brasil, realizou o mapeamento das atividades de exibição alternativa, visando a 25ª Jornada Nacional de Cineclubes/SP.
Na ocasião da 25ª Jornada Nacional de Cineclubes – precedida pela Pré-Jornada e pelo I Encontro Ibero-Americano de Cineclubes, em Rio Claro – o Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC) foi reconstituído como entidade representativa do movimento cineclubista, agora, organizado.
Hoje, o Brasil pode se orgulhar de ter uma entidade nacional que organizou outros dois encontros Ibero-Americanos, que faz a conexão entre mais de 300 cineclubes em todo o país, reconquistou seu espaço de representação, através da participação permanente no Conselho Consultivo da SAV, é entidade integrante da Coalizão Brasileira pela Diversidade Cultural e tem como uma das principais vitórias a concretização e aprovação da Instrução Normativa da ANCINE que reconhece a atividade cineclubista, marco do reconquista de espaço digno e justo no setor audiovisual.
Não por acaso, junto a FICC – Federação Internacional de Cineclubes – o Brasil é país chave rumo à rearticulação do cineclubismo no mundo, responsável pelo mapeamento e cadastramento em todo o Globo.
Temos muito caminho pela frente e toda a vontade para trilhá-lo.
2. Abordagem aberta da conceituação de cineclube
Um cineclube se caracteriza, principalmente, pela relação entre a sua equipe de realizadores e o seu público. Tendo em comum com as salas comerciais somente o fato de exibirem filmes, suas sessões são um ponto de encontro, onde acontecem discussões acerca dos filmes exibidos (linguagem, estética, movimentos como Cinema Novo, Neo-realismo Italiano, Cinema Marginal, Expressionismo Alemão, Atlântida) e sobre assuntos despertados pelas obras.
É uma atividade que caminha pelo viés social, não tem finalidade lucrativa e pode ser implementada em qualquer espaço (aberto ou fechado), com ou sem estatuto próprio, já que pode funcionar em parceria com entidades que tenham em seus objetos a exibição e a difusão cultural.
Mais que formar platéia, o movimento cineclubista objetiva colaborar na organização da sociedade civil, de forma que o papel de cidadão possa ser desempenhado com maior consistência.
(Antônio Claudino de Jesus, Presidente do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros - CNC e Vice-Presidente da Federação Internacional de Cineclubes – FICC)
3. O cineclube
Como organização coletiva, o cineclube tem seus departamentos, que, independente da nomenclatura, executam as seguintes funções:
· Curadoria e Programação – Responsável pelo conteúdo a ser exibido. De acordo com a linha de curadoria definida coletivamente, e levando-se em consideração as demandas vindas do seu público, esse departamento monta as grades de programação das sessões através de pesquisas, “garimpos” e/ou abrindo possibilidade de recebimento de obras.
· Produção – Responsável pela logística da atividade. Cuida para que o espaço do cineclube esteja liberado para montagem dos equipamentos ou que as instalações locais estejam de acordo com o definido. Também intermedia a relação entre curadoria e realizadores, no que se refere aos pedidos de cópias e explicações sobre como as atividades acontecem, bem como encaminha as mídias para a área técnica para a montagem dos programas de exibição.
· Divulgação – Parte importantíssima, pois é nessa fase que o cineclube começa a se comunicar com seu público. É importante que a divulgação carregue todas as informações sobre os filmes, e aconselha-se publicar um texto da curadoria sobre a sessão como um todo, até para que se fomente o debate. A divulgação também deve trazer o serviço completo: local, data, horário, demais atividades, caso haja e opção chuva, caso as sessões sejam ao ar livre. Normalmente são utilizados cartazes e filipetas, além de divulgação virtual, mas pode-se investir, quando possível, na inclusão de peças de divulgação em jornais, revistas, rádios e TVs.
· Apresentação e Mediação – Normalmente esse trabalho é realizado pela equipe de curadoria, já que, naturalmente, tem maior domínio sobre as obras exibidas e seu potencial de discussão, mas nada impede que haja um indivíduo da equipe especialmente designado para esse trabalho. De todo modo, ele estará visceralmente ligado à equipe de curadoria e programação. Uma boa apresentação ambienta a platéia, sugere momentos de atenção e aguça a curiosidade sobre as obras exibidas, preparando o ambiente para o debate ao final da sessão – que pode acontecer formalmente, com mesa de convidados e realizadores, ou informalmente, numa área de convivência no próprio local ou em local próximo. Ou seja, não interessa como a discussão vai se dar, mas a sua existência. O perfil do público é o que deve ditar a regra (que, inclusive, pode ter exceções).
· Técnica – O trabalho se inicia no recebimento da(s) cópia(s), em película, DVD, ou outro suporte, para a montagem do programa e finaliza na exibição do filme na sessão, com a preparação e a operação do equipamento. No dia a dia, é importante que se faça limpeza e manutenção dos equipamentos de imagem e som.
o DVD - No caso de um longa-metragem ou de uma sessão já preparada de curtas-metragens ou um curta mais um longa, como é o caso dos programas disponibilizados pela Programadora Brasil, basta que se teste a mídia no aparelho de reprodução. No caso das obras chegarem em mídias diversas, o trabalho é compilar em um único disco para evitar a troca de mídia durante a sessão. É importante que se garanta a qualidade original nesse momento.
o Película – Nesse caso, a montagem dos programas sempre ocorre, já que mesmo um longa-metragem chega em rolos separados.
(!) pode-se ter mais de uma pessoa em cada uma das áreas de atuação;
(!) muitos cineclubes criam interações com outras atividades, como apresentações musicais, recital de poesias, exposições, entre outras, como forma de movimentar seus dias de ação junto ao público e de levar mais interessados, através da possibilidade de diálogo entre artes.
4. Tecnologia de exibição – Vídeo / Película
Até a explosão digital ocorrida na virada do milênio, a atividade cineclubista trabalhava com o suporte película – principalmente o 16 mm, já que os projetores e filmes eram mais leves e fáceis de transportar.
Com a evolução das tecnologias digitais, os projetores de vídeo (datashow) ficaram mais leves, baratos e com maior potência e qualidade de projeção. O som acompanhou esta evolução, e, atualmente são encontradas no mercado opções para todos os orçamentos e necessidades.
Hoje a maioria dos cineclubes e atividades de exibição alternativa tem como suporte principal o DVD, pois além de garantir a boa qualidade de exibição, tem seus custos de duplicação e envio bem baixos, se comparados à película. Com o alto custo para se montar uma sala em película, e as reduzidas possibilidades de retorno econômico, caso a mesma esteja fora dos grandes centros, a forma mais eficaz de disponibilizar a imensa diversidade audiovisual a todos os brasileiros é o meio digital. Atualmente, o DVD é a maneira mais utilizada, mas o sistema via satélite ou cabo deverá estar acessível muito em breve.
5. Cuidados com a mídia (Fita / DVD / Película)
Qualquer mídia deve ser bem cuidada, seja película, magnética ou digital. Bem cuidada quer dizer bem armazenada, bem transportada e bem manuseada. Cuidar bem da mídia é trabalho imprescindível para se garantir a melhor sessão possível, sem interrupções desagradáveis (sejam momentâneas ou definitivas – queimar o filme ou travar o DVD, por exemplo).
· Armazenamento: em local sem umidade e refrigerado;
· Manuseio: no caso da película, não manusear sem luvas e, no caso de fitas e DVD, não tocar no magnético nem na parte impressa do disco;
· Transporte: qualquer mídia deve ser transportada em segurança, com plástico bolha (mais usual) ou espuma.
6. Sustentabilidade
Apesar da atividade cineclubista não ter finalidade lucrativa, ela envolve custos. Há casos de cineclubes que são projetos permanentes propostos por grupos de pessoas, ONGs ou associações, e se sustentam através de patrocínio. Em outros casos, cineclubes implementam suas ações de maneira casada com alguma outra já desenvolvida no local onde acontecem suas atividades (bares, por exemplo, podem cobrar couvert artístico, casas de espetáculo podem incluir a verba cineclubista nos seus custos fixos, entre outras maneiras). Há, ainda, casos de atividades cineclubistas que acontecem em salas comerciais, que gentilmente cedem seu espaço em algum dia da semana ou do mês, e permitem aos integrantes da equipe do cineclube que cobrem taxa de manutenção (diferente do ingresso, pois é totalmente revertida para a atividade e não prevê divisão de lucro – para saber mais sobre a Taxa de Manutenção, procure pela Instrução Normativa na página da Ancine).
Mas o que quer dizer sustentabilidade dentro do âmbito cineclubista? Simplesmente a equipe deve saber quanto custa financeiramente a sua atividade (inclusive podendo prever pagamento de pessoal) e procurar qualquer mecanismo descrito no parágrafo anterior ou buscar qualquer alternativa que resolva suas necessidades e, mais importante, deve sistematizar e formalizar a ação de sustentabilidade cineclubista, de maneira a evitar contratempos.
Como já dito, um cineclube é um coletivo que abriga equipe e público. E, por ser uma atividade “frágil” economicamente – apesar de extremamente potente no que se refere ao viés cultural e ao social – quanto maior e mais harmônico o coletivo melhor. Nesse sentido, nada melhor e mais saudável que a relação entre cineclubes do mesmo bairro, mesma cidade, mesmo estado, mesma região. Hoje, a partir da reorganização do movimento cineclubista, existem organizações estaduais no RJ, em SP, no ES e em GO, que já mostram bons resultados. Através da existência das entidades estaduais, trabalhando em conjunto com o CNC, as demandas locais podem mais facilmente ser abordadas e solucionadas, políticas públicas municipais e estaduais propostas, parcerias conjuntas, divulgação otimizada, enfim, podem ser trabalhadas as convergências entre todos, sempre guardadas as especificidades de cada atividade.
(Leia mais no Anexo, ao final desta cartilha)
7. O cineclube nas escolas
No ambiente escolar, a atividade cineclubista pode assumir diversas funções. Uma delas é aproveitar os temas dos filmes para se trabalhar as disciplinas do currículo. Além disso, pode trazer interessantes discussões para a sala de aula, incentivando os alunos a dar opiniões e ouvir e respeitar as idéias dos colegas, mesmo que sejam diferentes das suas.
Outra interessante possibilidade de trabalho é abrir a escola para a comunidade do entorno, tornando-a não só um centro de ensino, mas um centro de convivência – cultural e de entretenimento. A partir daí, as pessoas podem se tornar mais atentas aos acontecimentos e interessadas em propor alternativas, colaborando para a mudança da sua qualidade de vida e do seu coletivo.
Quando relacionamos os programas ao currículo escolar, deve-se ter o cuidado de abordar temas complementares ao processo de aprendizado. Também é importante que o professor assista aos filmes antes e, ao apresentá-los para a turma, aponte os pontos em que os alunos devem prestar mais atenção. Não é recomendado fazer comentários durante a projeção. Promova um debate após a sessão.
Quando existir um cineclube em cada escola, a produção audiovisual brasileira estará plenamente à disposição de todos os brasileiros.
(Leia mais no Anexo, ao final desta cartilha)
8. Potência adormecida
Complicada a tarefa de colocar toda a diversidade audiovisual à disposição da população brasileira. Impossível, pode-se dizer, já que a produção aumenta em escala geométrica. No Brasil (mas não só aqui) sofremos com o desaparecimento das salas de rua e com a concentração de salas em grandes complexos de consumo, fazendo com que as únicas maneiras de entrada de audiovisual na maioria das cidades aconteçam a partir de locadoras de vídeo e, principalmente pela TV aberta. Essa situação gera dois grandes problemas: arrebenta com a idéia de sala coletiva de exibição (como possibilidade de lazer, de absorção de cultura e convívio social) e colocam a disposição da população quase somente obras de consumo rápido e em massa.
Com a tecnologia digital cada vez mais acessível e proporcionando exibições de excelente qualidade, a possibilidade do retorno das salas de bairros, de ruas, em cidades dos interiores do Brasil tornou-se uma bela realidade em construção. Somemos a isso o fato da comunicação de longa distância estar cada vez mais simples, proporcionando troca de informações que alimentem a movimentação de um circuito exibidor alternativo e notaremos que apenas é preciso que aparemos arestas.
Lógico, a tecnologia ainda pode melhorar bastante a qualidade de exibição (e ainda aperfeiçoar o mecanismo de difusão) e, lógico, a banda larga ainda não existe igualitariamente para todos, porém, são uma tsunami em curso que alcançará a todos e não haverá força que contenha.
Seguindo essa linha de raciocínio, a baixos custos é perfeitamente possível e realista a constituição de espaços de exibição, como comprova a explosão cineclubista e a constituição de salas multimídia pelos quatro cantos do país. Levando-se em consideração que menos de 20% da população brasileira sustenta a atividade audiovisual em salas comerciais de cinema, levando-se em consideração que só a região sudeste concentra 60% das salas comerciais do país e levando-se em consideração a expressiva marca de aproximadamente 70% dos municípios brasileiros com locadoras de vídeo, há um mercado pronto para expandir e uma demanda reprimida pela pouca variedade de oferta.
Essa realidade remete a iniciativas como a do “Curta o Curta” (para festivais e para cineclubes), “Curtas na Prateleira”, da Cavídeo, a parceria ABD-SP / Europa, Pop Cine, Filmoteca Carlos Vieira do CNC, Ponto Cine, por exemplo.
Então sigamos. Temos 180 milhões de brasileiros. Através da implantação de pontos alternativos de exibição digital (partindo do DVD com data show para tecnologias mais sofisticadas) nas escolas, universidades, Sistema S, cineclubes, Pontos de Cultura, Pontos de Difusão Digital, espaços culturais ligados ou não às esferas municipais, estaduais e federal, projeta-se a existência de 100 mil exibidores alternativos à disposição dos 180 milhões.
Se 10% dos brasileiros forem espectadores regulares nessas salas (a metade dos que freqüentam as salas convencionais) e pagarem taxa de manutenção (não é ingresso) no valor de R$ 2,00, por exemplo, serão 36 milhões de reais por programa circulando nesse circuito alternativo, ainda com largo espaço para crescimento. Otimismo com certeza, mas perfeitamente possível. E, mais, se pensarmos que as salas podem (diria devem) ser acompanhadas por área de convivência e aberta a outras expressões artísticas, as possibilidades de sustentabilidade da atividade aumentam exponencialmente.
A conta é grosseira, é realmente necessário que as tais arestas sejam aparadas e que esse circuito se defina e funcione em rede, assim como é necessário que outras iniciativas difusoras e distribuidoras surjam e que as existentes se fortaleçam.
E o melhor de tudo é que estamos vivendo o início desse processo e tendo a oportunidade de construir no presente o potente futuro do audiovisual brasileiro.
Frederico Cardoso
Coordenador executivo da ação Cine Mais Cultura
9. Como registrar um cineclube passo-a-passo
Grande parte dos cineclubes brasileiros funciona de maneira informal ou têm suas atividades ligadas a uma estrutura “guarda-chuva” que desenvolva outras atividades no âmbito audiovisual. Basicamente, existem dois problemas enfrentados por quem opta pela informalidade: a redução da possibilidade firmar parcerias e convênios e a redução das possibilidades de financiamentos (leis de incentivo, editais públicos, entre outros).
No entanto, aconselha-se que, inicialmente, o grupo de pessoas que pretende formar o cineclube opere sem constituição jurídica formal (CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), enquanto se desenvolve a linha de trabalho – que sempre sofre alterações, sobretudo em início de atividade – e as funções estejam bem definidas e entendidas por todos os integrantes da equipe. Depois, com todos os objetivos definidos, investir na constituição legal do cineclube torna-se uma boa opção, desde que o grupo responsável tenha como arcar financeiramente não somente com a formalização do cineclube, mas com o seu dia a dia (advogado e despachante para a constituição e contador para o dia a dia, pelo menos).
Um cineclube, assim como qualquer ONG, cooperativa, ou associação sem fins lucrativos, deve ter seu estatuto: nome do cineclube, sua sede e foro, definição dos associados, direitos e deveres da diretoria e do conselho e dos associados, bem como as funções de cada cargo e, o mais importante, os objetivos do cineclube. Aconselha-se que o grupo procure assessoria de um advogado já na época da discussão do conteúdo do estatuto. Será necessário que um profissional de direito assine o estatuto e, caso haja possibilidade, um despachante normalmente agiliza o processo de constituição legal.
(!) Em cada município há legislação independente no que se refere à constituição legal. É importante que o grupo cineclubista se intere da legislação do seu município.
(!) Modelo de estatuto: www.cineclubes.org.br .
· Certificado de Produto Brasileiro (CPB) – O CPB é a certidão de nascimento da obra audiovisual no Brasil. Além de ser necessário para exibições em salas e em TV, é importante mecanismo para a construção de um grande banco de dados que contenha as informações de todas as obras brasileiras realizadas.
· Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (CONDECINE) – Taxa recolhida sobre qualquer relação comercial de exibição que, naturalmente, não é cobrada de cineclubes ou qualquer outra exibição sem cobrança de ingresso.