O cinema como uma ponte para diferentes lugares do mundo e do futuro. Assim é a perspectiva desenvolvida pelo diretor do Museu do Marajó, Paulo Pinto Carvalho, que aposta nas sessões de filmes brasileiros do Cineclube como forma de mostrar diversas realidades sociais e de abrir caminho para novos profissionais do audiovisual. Confira abaixo a entrevista com Paulo Pinto Carvalho sobre as atividades do Cineclube Museu do Marajó.
Como foi iniciado o trabalho com audiovisual no Museu do Marajó?
As exibições começaram em fevereiro de 2008. Já tínhamos um acervo pequeno com filmes enviados por museus e, como somos Ponto de Cultura, havíamos recebido filmes de alguns diretores. As sessões de cinema são uma forma de conhecer o mundo e diferentes visões de mundo. O município de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, não tem sala comercial de cinema e, até promovermos oficinas de realização, muitas pessoas na Ilha nunca tinham visto na vida um filme em sala de exibição.
Nossos objetivos com as sessões de filmes do catálogo da Programadora Brasil são proporcionar o encontro das pessoas com o cinema e divulgar o cinema brasileiro e paraense. Com as exibições de curtas e longas nacionais, também queremos mostrar que é possível fazer cinema em qualquer lugar. O Museu é voltado para a cultura marajoara e brasileira, sendo que os filmes estrangeiros são mais fáceis de ver na TV. Acho interessante exibir filmes brasileiros porque as pessoas se identificam mais. Exibimos quatro filmes do Pará e, independente da qualidade técnica, a identificação é grande e gera reflexão sobre a vida das pessoas no estado.
Porque o Museu decidiu utilizar o acervo da Programadora Brasil?
Desde o início tivemos a idéia de nos associar à Programadora Brasil. Já trabalhei em produções de cinema e achei o acervo do projeto super interessante. O Instituto de Artes do Pará (IAP), em Belém, se tornou associado da Programadora, adquiriu os 38 programas do primeiro lançamento e o Museu do Marajó entrou como ponto vinculado ao IAP, de acordo com suas demandas sociais e educativas. Agora o Museu do Marajó se associou como ponto independente e vamos adquirir novos programas. Assim, vai ficar mais fácil para os professores da cidade solicitarem sessões de acordo com suas necessidades, sem depender do DVD não estar sendo usado em Belém. Agora poderemos agilizar os trabalhos aqui na Ilha, sem precisar pegar os programas na capital e voltar para devolver.
Qual é o público alvo das sessões de cinema?
Adolescentes e jovens. Fazemos exibições todas as sextas-feiras para que elas sejam uma boa opção de cultura e lazer para os jovens da Ilha. Queremos não só construir um público, mas ser uma opção além dos bailes, que se misturam com o problema do alcoolismo. O município Cachoeira do Arari tem o IDH mais baixo de todo o Brasil, e os jovens que terminam o 2º grau não têm onde trabalhar. Um dos nossos desafios é levar os jovens até o Museu, pois muitos não têm esse costume. Agora vamos investir também em sessões nos bairros.
Além de estar a serviço dos adolescentes, o acervo de filmes e vídeos é mais uma ferramenta na formação dos jovens professores da Ilha, porque muitos estão fazendo faculdade e usam os títulos da Programadora como fonte de pesquisa sobre cinema e testam o uso deles como ferramenta de ensino.
Os trabalhos de exibição e oficinas no Museu têm gerado frutos?
Como muitos estudantes aprenderam a operar câmera e editar nas oficinas, a produção audiovisual está virando atividade de classe nas escolas. Mas um dos nossos problemas aqui é a falta de internet de qualidade, sendo que há poucos meses a conexão banda larga chegou aqui. A partir de agora, vamos estimular os novos realizadores da Ilha a colocarem sua produção em sites.
Estimulamos os jovens a filmar nossa cultura que é atropelada pelos meios de comunicação de massa. Temos vídeos prontos sobre figuras locais como os pescadores e os vaqueiros. Nossa idéia é também ajudar na formação profissional, para que as oficinas e as sessões de cinema possibilitem o surgimento de bons atores, diretores ou produtores aqui na Ilha. Bons profissionais do cinema podem surgir em qualquer lugar.
O Museu tem projetos para expandir as atividades de exibição?
Com o novo Pontão de Cultura que será instalado no Pará, teremos cinco pontos ligados a ele, e um deles será o Museu do Marajó. Vamos aproveitar as oficinas de audiovisual para divulgar a Programadora Brasil aos nossos novos parceiros, já que é uma excelente iniciativa, e vamos pedir para que os programas do projeto sejam exibidos paralelamente às oficinas.
(Leia aqui a reportagem sobre as atividades do Cineclube Museu do Marajó)