O filme questiona se ainda há espaço para a arte num mundo dominado pelo consumismo e pela competitividade vil. Os personagens principais são os poetas Torres (Bertrand Duarte) e Xavier (Jandir Ferrari) inspirados respectivamente em Augusto dos Anjos e Cesário Verde. Torres e Xavier lançam um livro de poesia numa pastelaria do centro da cidade. A região conhecida como "Boca do Lixo" exerce um fascínio irresistível sobre o diretor Carlos Reichenbach, que busca aproximar-se de espaços marginalizados, pois lá residiria a alma da cidade, apesar da degradação aparente. Reichenbach cria diversos cortes temporais durante o filme, retrata a infância dos personagens no início dos anos 1960, mostra os conflitos ideológicos durante o regime militar e critica tanto a violência dos donos do poder quanto a fé cega em discursos tirados das cartilhas de Karl Marx, Stalin, Mao e outros.
Filme do Programa 1
Crítica
Almas que dançam
Legítimo representante do cinema de poesia brasileiro. Alma Corsária narra duas histórias ao mesmo tempo: a primeira, relativamente linear, conta a evolução da amizade entre Xavier e Torres de 1957 a 1994; a segunda, mais indisciplinada, estende uma tapeçaria de referências pessoais e culturais de Carlos Reichenbach, sem obedecer a qualquer regra que não seja a da afetividade. O espectador disposto a fazer essa dupla viagem encontra um dos filmes mais belos e criativos do diretor paulista.
O feixe de memórias e citações parte de um inusitado lançamento de livro numa certa “Pastelaria Espiritual”, nome que já serve de senha para a simbiose do trivial e do sublime. A presença da alta poesia no baixo mundo é tradução por excelência do cinema popular de Carlão, que desde a época das pornochanchadas soube contrabandear filosofia e política para o ambiente da “Boca do Lixo”. Essa operação desconcertante atinge seu clímax lírico numa seqüência antológica do cinema brasileiro, quando um pianista negro e corpulento interpreta “Clair de Lune”, de Debussy, desencadeando em cada ouvinte o seu sonho mais querido.
Torres, o poeta tísico e maldito, e Xavier, o amigo rico e culpado, são inspirados, respectivamente, em Augusto dos Anjos e Cesário Verde, poetas que viveram em países e épocas distintas. Como eles, outros personagens e situações remetem às admirações literárias e cinematográficas de Carlão, aí incluídos com maior clareza Jean Cocteau, Fritz Lang, Godard, Fellini, Samuel Fuller, Humberto Mauro, Luís Sérgio Person e as chanchadas. Mas essa trama de alusões está longe de tornar Alma Corsária um filme para iniciados. Tudo está subordinado às experiências vividas por Torres em sua busca do amor, de uma certa dignidade profissional e da independência de pensamento mesmo diante dos dogmas da esquerda, de resto tratados com divertida ironia.
Temos aqui uma das obras mais pessoais de Carlão, inclusive no que toca a episódios vividos na infância e adolescência em pequenas cidades paulistas. Além de dirigir, ele fez a fotografia e a música. Por razões de economia e de autoria. A trilha sonora, por sinal, é que nos guia na viagem emocional proposta por Alma Corsária. A música suspende o naturalismo das cenas e coloca os personagens para dançar. Quando o gesto ou o andar viram dança, a poesia invade a prosa e estamos todos libertos para sonhar. Até mesmo sonhar com a vitória da vida sobre a morte, afinal o grande tema do filme, exposto na primeira e na última cena.