Prêmios de melhor documentário e melhor montagem no Festival de Brasília de 2000, o filme O chamado de Deus apresenta uma visão atual da Igreja Católica no país. Dirigido por José Joffily, o filme traz depoimentos de jovens com vocação religiosa, colocando representantes da Ordem dos Franciscanos em oposição aos da Renovação Carismática. A discussão entre esses dois grupos é conduzida com delicadeza por Joffily. O diretor dá abertura imparcial aos seus protagonistas e não esconde do espectador que o documentário acontece na medida de seu aprendizado e envolvimento com o tema. Uns assistem aos depoimentos dos outros em vídeo e depois opinam, criticam, discordam e polemizam. O embate não é exposto antes que se conheça a origem de cada uma das personagens: como se decidiram pela vida religiosa, seus sonhos, suas relações familiares, sua vida diária.
Filme do Programa 10
Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.
Crítica
Depende de quem chama
Marcos Pierry
No documentário O Chamado de Deus, de José Joffily, vemos jovens de dois grupos darem seu testemunho de fé, relatando o que os moveu ao ingresso na vida católica e à conseqüente renúncia aos aspectos mundanos comuns à rotina de amigos e familiares. Eles contam as alegrias e percalços de sua escolha, falam sobre o papel dos pais na descoberta da vocação, as certezas e dúvidas que os acompanham enquanto se preparam para assumir plenamente a condição de padres, freiras ou frades.
Mas, logo nos primeiros minutos, o longa-metragem fornece pistas de que não tratará apenas de religião. É só reparar na senhora que, após louvar a Deus com extrema emoção, acrescenta um pedido ao criador: ?transformai o nosso Brasil, que precisa ser passado a limpo?. Como se verá mais adiante, os clérigos em início de carreira falam também sobre política. E aí, sim, certas diferenças entre eles tornam-se bem claras.
Uns são identificados com a Renovação Carismática, movimento católico da década de 60 que varreu o Brasil nos anos 90 e tem na figura do padre Marcelo Rossi seu maior símbolo. Outros demonstram clara afinidade com a militância social, os movimentos populares. Pelo que se apresenta no filme, a referência maior desses últimos seria Dom Luis Cappio, bispo do município de Barra, na Bahia. Para os primeiros, a igreja tem que ficar na sacristia quando o assunto for política (corroborando com a declaração dada por uma autoridade à época da realização do documentário). Para os do segundo grupo, pensar assim é ?retrocesso intelectual, filosófico?.
Chega a ser inusitado ver, de forma tão direta, membros da própria igreja, ainda que das divisões de base, refletirem sobre sua própria capacidade de interlocutores no processo político do País. Rossi, que é cantor popular e estrela filmes de sucesso, também tem, de algum modo, seu discurso contraposto à pregação de Dom Cappio, que em 2005 fez greve de fome contra a transposição do rio São Francisco.
O Chamado de Deus transita com desenvoltura entre os pólos, sem esquentar gratuitamente as polêmicas. O mérito vem da organização ao que é dito e mostrado. Exemplo: a montagem que permite acompanhar ao estilo ação paralela, a mesma canção religiosa (?Abençoa, Senhor?) executada em dois ambientes: numa missa-show para um Maracanã com 200 mil pessoas e durante uma visita rotineira dos frades baianos a um domicílio. Ao que consta, o objetivo seria o mesmo, arrebanhar fiéis, mas a forma e o resultado mudam de maneira drástica. São dois Brasis que se colocam.