A diversidade da condição feminina em seis diferentes olhares de mulheres cineastas compõe este programa. Com a sensibilidade que marcaria a carreira posterior de sua realizadora, a cineasta Laís Bodanzky, o premiado “Cartão Vermelho” acompanha a manifestação da sexualidade de uma menina, jogadora no futebol de várzea. Exibido no Festival de Cannes, o engenhoso “Três Minutos”, de Ana Luiza Azevedo, trata de decisões que podem mudar nossa vida. A sexualidade é protagonista também de Messalina, de Cristiane Oliveira – com a particularidade de a protagonista ser deficiente visual. Na animação “Desventuras de Um Dia, ou A Vida Não é Um Comercial de Margarina”, de Adriana Meirelles, um estressante dia de trabalho ganha redenção através do amor. Uma jovem mãe tem as agruras de um duro cotidiano compensadas através do contato com sua filha em “Dalva”, de Caroline Leone. Encerrando o programa, “Estória Alegre”, de Cláudia Pucci, é baseado em texto de Anton Tchecov e retrata uma situação de risco com desfecho extremamente prazeroso.
Filmes do Programa 102
Tempo total aproximado do programa: 63 minutos.
Crítica
Cada mulher é um mundo
José Roberto Rocha*
O programa “Olhares Femininos” não justifica seu título simplesmente por ser composto de seis curtas-metragens dirigidos por mulheres. Muito mais relevante parece ser o compromisso de todos estes trabalhos em se deixar envolver pela sensibilidade das personagens femininas que os protagonizam. Trata-se, óbvio, de um procedimento que se desenvolve de acordo com as particularidades estéticas e dramatúrgicas de cada filme e, embora seja possível arriscar algumas aproximações, cada um dos filmes se desenrola em registros bem diversos.
O filme que abre o programa, “Cartão Vermelho” (1994, de Laís Bodanzky), por exemplo, trata da descoberta da sexualidade, a exemplo de “Messalina” (2004, Cristiane Oliveira). No entanto, enquanto o primeiro mergulha no universo infanto-juvenil de um campo de pelada onde uma garota compartilha o gosto pelo futebol com um grupo de meninos, o segundo retrata o desabrochar sexual de uma mulher cega que atende um telefone público e é confundida com uma prostituta. Ambos tratam, cada um a sua maneira, da relação entre essas mulheres, seus corpos e as possibilidades que surgem diante delas.
“Três Minutos” (1999, Ana Luiza Azevedo), é uma produção da conceituada Casa de Cinema de Porto Alegre e alcançou grande repercussão à época de seu lançamento, tendo sido relacionado para a mostra competitiva de curtas no Festival de Cannes. O filme se utiliza da expressividade dos movimentos de câmera e do cenário para construir o terreno emocional sobre o qual se encontra uma mulher que, diante do esgotamento de um sonho de vida, decide deixar o marido.
Já “Desventuras de Um Dia ou A Vida Não É Um Comercial de Margarina” (2004, Adriana Meirelles) e “Dalva” (2004, Caroline Leone), são crônicas de cotidiano que giram em torno de personagens bastante diferentes. “Desventuras...”, animação produzida com esmero, retrata um dia de trabalho de uma jovem de classe média cuja narração contamina e deforma as imagens de maneira muito inventiva. “Dalva”, por outro lado, se apóia numa secura quase documental ao acompanhar a dura rotina de uma faxineira que transita entre dois empregos enquanto tenta criar sua filha, única fonte de luz a aparecer em um filme marcado por uma sobriedade quase absoluta.
Fechando o programa está o curta baseado na obra de Anton Tchecov “Estória Alegre” (2003, Cláudia Pucci), no qual um casal de jovens descem uma grande ladeira em carrinhos de rolimã. A fluidez e velocidade dos movimentos apontam para uma noção de liberdade que ganha voz e se revela diante da jovem, irremediavelmente seduzida e maravilhada.
*José Roberto Rocha Crítico de cinema trabalhou em diversas
revistas eletrônicas como a Contracampo
e a Cineimperfeito. Atualmente
faz parte da redação da revista impressa
Paisà. Já trabalhou como assistente
de direção, câmera e roteirista na produção
de curtas-metragens.