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À margem do concreto e Casa de cachorro

Programa 104
À margem do concreto e Casa de cachorro são retratos marcantes da questão habitacional no Brasil contemporâneo. O primeiro assume a linguagem do documentário de reportagem para falar dos movimentos urbanos de ocupação de moradias, com fortes imagens de operações de despejo. Já o curta-metragem Casa de cachorro descobre um grupo de famílias que usa os canteiros de uma via expressa de São Paulo como local de moradia e trabalho, produzindo casas de cachorro em carpintaria. A justaposição dos depoimentos dos fregueses e dos moradores compõe um pequeno retrato — de cunho político — da exclusão social no Brasil.

Filmes do Programa 104


Tempo total aproximado do programa: 114 minutos.

Crítica


VIVER COM DIGNIDADE

Cid Nader*

São evidentes os diálogos entre o curta-metragem de Thiago Villas Boas e o longa-metragem de Evaldo Mocarzel reunidos neste programa: na opção temática que é a de dar voz a quem procura viver com dignidade, e também na forma de construção que privilegia a entrevista olho no olho — com a evidente cumplicidade obtida entre realizadores/entrevistadores e as pessoas focadas em ambos os documentários. São trabalhos que, à primeira vista, retratam as realidades dos marginalizados e pobres da “grande cidade”, São Paulo (poderia ser Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou qualquer outra metrópole) — normalmente egressos de outros rincões do país. Enquanto em Casa de cachorro, Villas Boas (em seu trabalho de conclusão de curso) apresenta nordestinos que tentam sobreviver dignamente na capital paulista, em À margem do concreto, Mocarzel dá continuidade a um conjunto de documentários que procuram retratar pessoas excluídas, neste caso — há nordestinos, mas gente do Sul, também—mostrando a realidade do Movimento dos Sem Teto, sua organização e como preenchem os anseios da casa própria.

À margem do concreto acompanha aqueles que procuram moradia e se organizam para tal. Repetindo a fórmula de seus outros trabalhos, Mocarzel aparentemente abraça uma causa. Seria uma espécie de atitude política engajada essa opção por um lado da questão, não fosse o diretor alguém que crê piamente em sua obra como meio de oxigenação das ideias e como veículo condutor de esperanças e soluções. É feliz nessa sua opção quando se nota a sinceridade nos depoimentos e o desarmamento dos espíritos daqueles que se veem como vítimas sociais, agindo sempre com desconfiança contra o que possa ser representação do sistema. Vai a vários locais: alguns onde as pessoas já vivem dignamente, outros onde as invasões são recentes; volta aos cortiços de onde partiram essas pessoas em busca de lugar rmelhor para morar, e destaca vários tipos na tentativa de traçar um painel mais detalhado dos envolvidos no movimento. O final catártico do documentário ratifica que sua obra toma mesmo partido: sem vergonha disso.

Já Casa de cachorro mostra pessoas que vieram à cidade grande em busca de solução para sua miséria, em busca de água (o filme mostra, sem ser óbvio ou ostensivo, o prazer que elas sentem com a possibilidade de utilizar água sem escassez — boa parte da primeira metade do curta tem como cenário torneiras e tanques com água farta), e que encontraram nas grandes avenidas marginais, sob viadutos, seus novos lares e fonte de sobrevivência. O filme é recheado de depoimentos esperançosos, já que essas pessoas conseguem retirar seu sustento do trabalho artesanal, o que afasta a possibilidade de mendicância ou marginalidade. É direto e correto na maneira de entrevistar e lhes dar voz e é muito oportuno ao mostrar, um mês depois, uma tentativa de despejo por parte da Prefeitura de São Paulo.

*Jornalista e crítico de cinema. Editor e um dos idealizadores do site de cinema Cinequanon www.cinequanon.art.br. Colaborador da revista Paisá e do site Omelete. Edita também o Cidblog www.cinequanon.art.br/cidblog.

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