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O baiano fantasma e Migrantes

Programa 107
Vencedor do Festival de Gramado nas categorias de melhor filme, melhor diretor (Denoy de Oliveira) e melhor ator (José Dumont), O baiano fantasma narra a saga de um nordestino que vai tentar a sorte na capital de São Paulo. O filme conta com a brilhante atuação de José Dumont, encarnando o protagonista, e com imagens e sons de uma São Paulo das paisagens de concreto e periferia e dos personagens desvalidos e invisíveis que lutam por seus pequenos sonhos na grande metrópole. Já o curta-metragem Migrantes, de João Batista de Andrade, tem a estrutura narrativa de uma reportagem especial. A câmera encontra uma família de migrantes nordestinos que vive sob um viaduto em São Paulo, traçando o retrato clássico dos sonhos de uma vida melhor, massacrados pela crueza da metrópole insensível. O filme se realiza no momento do diálogo entre o migrante e um paulistano.

Filmes do Programa 107


Tempo total aproximado do programa: 105 minutos.

Crítica


DESVENTURAS DO SUL MARAVILHA

Ricardo Calil*

No início de O baiano fantasma, Lambusca (José Dumont), recém chegado da Paraíba para tentar a sorte em São Paulo, conhece Chico Peixeira, conterrâneo que virou mendigo depois que a polícia lhe confiscou a faca. É um dos muitos encontros que o protagonista terá em suas desventuras paulistanas, mas este tem um significado especial. Peixeira é uma espécie de cangaceiro decaído, e Lambusca não deixa de ser seu filho simbólico, migrante de uma nova geração que chega ao suposto Eldorado cheio de ilusões, mas já sem uma aura mitológica. E, assim como Lambusca descende de Peixeira, O baiano fantasma é umfilho temporão do Cinema Novo, com o mesmo desejo de desnudar a degradação social brasileira, mas substituindo a alegoria pela crônica.

Como muitos cinemanovistas, o dramaturgo, ator e diretor paraense Denoy de Oliveira (1933-1999) despontou nos anos 1960 no engajado Centro Popular de Cultura (CPC). Ali nasceu o desejo de fazer uma arte ao mesmo tempo política e popular. No cinema, O baiano fantasma representa o momento em que ele conseguiu a melhor síntese entre essas duas vertentes.

A narrativa começa com a chegada de Lambusca a uma favela paulistana. Em pouco tempo, o protagonista consegue um emprego como cobrador de dívidas, sem saber que seu patrão comanda uma quadrilha que vende proteção a comerciantes. Ao pressionar um dos devedores, Lambusca provoca sua morte por infarto, foge com o pagamento e passa a ser perseguido tanto pela polícia quanto pela gangue. E ainda vira notícia em jornais sensacionalistas, sob a alcunha de “baiano fantasma”.

Mais do que a trama policialesca, o que interessa a Oliveira é registrar a gradual perda de identidade de Lambusca — que começa com a identificação preconceituosa do paraibano como “baiano” e vai até a recusa do próprio personagem a socorrer um conterrâneo agredido pela quadrilha. Ao longo de todo o filme, denúncia e farsa caminham de mãos dadas: se em um momento a narrativa endurece com palavras de ordem, na sequência se distende com os diálogos rimados que remetem à literatura de cordel. Em qualquer um desses movimentos, a obra se beneficia da interpretação brilhante de Dumont.

Se O baiano fantasma é filho do Cinema Novo, é preciso ressaltar que seu irmão mais próximo é O homem que virou suco (1981), de João Batista de Andrade, que também tinha Dumont no papel de migrante nordestino perseguido pela polícia em São Paulo e contava com Denoy de Oliveira no elenco de coadjuvantes. O tema do deslocamento e do preconceito já era caro a Andrade, que realizou em 1972 o curta documental Migrantes a partir da seguinte notícia de jornal: “Moradores do Parque Dom Pedro reclamam da presença de marginais sob um viaduto”. A equipe de filmagem vai ao local e descobre que os “marginais” são uma família de nordestinos. Ao avistar um executivo, Andrade lhe cede de improviso o microfone — e o inesperado diálogo entre o paulistano engravatado e o nordestino desempregado toma conta do curta. Apesar da pouca circulação do filme, é possível afirmar que sua abordagem ao mesmo tempo grave e irônica dita — ou ao menos inspira — o tom de longas posteriores sobre o tema, incluindo aí tanto O homem que virou Suco quanto O baiano fantasma.

* Ricardo Calil é crítico de cinema, redator-chefe da revista Trip, colaborador do Guia da Folha, do jornal Folha de S. Paulo, e titular do blog Olha só, no portal IG.

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