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Boleiros, era uma vez o futebol e Uma história de futebol

Programa 108
Boleiros, era uma vez o futebol e Uma história de futebolAmpliar Foto do Programa 108
Classificação
Livre
Temas
futebol, infância, velhice, amizade, bar, juíz
Recursos Extras
Closed Caption Audio Description
Séries
· Brasil diverso


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Uma seleção que não marca apenas um gol, mas faz uma goleada... Assim é a escolha dos filmes escalados para este programa sobre uma das paixões nacionais: o futebol. Boleiros, era uma vez o futebol já nasceu clássico. Basta conferir o elenco. O “técnico” Ugo Giorgetti não quer saber de retranca e bota o time todo no ataque. O longa-metragem trata de “causos” saborosos, fruto das memórias de gente que nasce e vive do esporte. Mas nem todas as narrativas são felizes nesta obra de forte apelo popular. Afinal de contas, racismo, trambiques, amores, fracassos e ilusões fazem parte de todos os tipos de enredo – e o futebol, é claro, não é exceção.
Já o curta-metragem Uma história de futebol, de Paulo Machline, é uma ficção sobre as lembranças de um garoto que jogou um dia com aquele que seria, pouco tempo depois, o rei Pelé. Premiado em vários festivais, foi escolhido melhor curta no Grande Prêmio Cinema Brasil e fez parte da seleção oficial de curtas-metragens do Oscar em 2001. Dois filmes que dão um show de bola!


Filmes do Programa 108


Tempo total aproximado do programa: 118 minutos.

Crítica


O futebol, o tempo e a cidade

Ricardo Calil*

No Brasil, existe o mito de que o futebol não rende bom cinema. Mas, se não há uma obra-prima definitiva, existe um punhado de bons documentários (Garrincha, alegria do povo e a série televisiva Futebol) e outro de ficções (o curta Barbosa e os momentos futebolísticos de Linha de passe) sobre o tema.
Boleiros, era uma vez o futebol e Uma história de futebol fazem parte desse seleto grupo. No caso do longa-metragem de Ugo Giorgetti, talvez seja impreciso dizer que se trata de uma produção sobre o esporte mais popular do Brasil. O filme é, antes de tudo, um estudo afetivo sobre a passagem do tempo – que usa o futebol como filtro da memória.
O ponto de partida é o encontro em um bar de pessoas que foram ligadas ao futebol: os ex-craques Naldinho (Flavio Migliaccio), Otávio (Adriano Stuart) e Ari (João Acaiabe), um ex-juiz (Rogério Cardoso), entre outros. Eles relembram casos do passado remoto ou recente: o juiz comprado que mandou repetir um pênalti três vezes, o ex-jogador que precisa vender os troféus para levantar dinheiro, os torcedores corintianos que levam um atleta machucado a um pai-de-santo, o jogador malandro que dribla o técnico durão para dormir com uma mulher na concentração e assim por diante. São episódios em geral bem-humorados, dirigidos por alguém que claramente entende do riscado (Giorgetti escreve sobre futebol em jornal), e que dão ao filme um saboroso tom de crônica esportiva. Mas não conseguem evitar que se instale um crescente clima de melancolia no bar, despertado pelo embate entre as lembranças de um passado mítico e a sobrevivência em um presente real demais, pelo contraste entre as fotos antigas dos craques na parede e os corpos envelhecidos à mesa. Sentimento resumido por um dos boleiros do filme: “Parar de jogar bola não é justo. Sou técnico há 20 anos, sempre sonho que estou jogando, nunca sonho que estou no banco”.
Esse choque entre o novo e o velho é o cerne da obra de Giorgetti. Em seus filmes o espaço geográfico e social está longe de ser um dado irrelevante. Por trás do ar aparentemente despretensioso da maioria de suas produções, o cineasta lança um olhar bastante agudo sobre as transformações que o tempo impõe a São Paulo, construindo uma obra de rara coerência no cinema brasileiro recente. Uma visão crítica, mas não contaminada pelo saudosismo de seus boleiros.
No caso de Uma história de futebol, é justamente a nostalgia que move o filme: Zuza (com a voz de Antônio Fagundes) relembra seus tempos de pelada em Bauru com o menino que se tornaria o rei do futebol, um certo Pelé. Em um curta-metragem bem cuidado e construído, que seria indicado ao Oscar da categoria, o diretor Paulo Machline se aproxima não de Giorgetti, mas dos personagens deste, saudosos de um tempo que só a memória consegue recuperar.

* Ricardo Calil Crítico de cinema, redator-chefe da revista Trip, colaborador do Guia da Folha e
do jornal Folha de S.Paulo, e titular do blog Olha só, no portal IG.

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