Cafundó parte da história real de João de Camargo (ex-escravo cuja trajetória passa pela Guerra do Paraguai) para fazer um retrato dos afrodescendentes e da religiosidade sincrética brasileira. Natural da região de Sorocaba (SP), Camargo se deslumbra com o mundo fora da escravidão e se casa com uma mulher branca. Ele passa a viver entre o quilombo local e a construção de uma igreja onde realiza milagres, misturando a fé católica a influências africanas.
A codireção de Clóvis Bueno se reflete no cuidado com a direção de arte e reconstituição de época, e a de Paulo Betti na direção de atores. Didático e com paisagens impressionantes, o filme é um documento precioso sobre a construção étnica e espiritual do povo brasileiro.
Filme do Programa 109
Tempo total aproximado do programa: 97 minutos.
Crítica
Retrato de um Brasil em transformação
Pedro Butcher*
Vencedor de cinco prêmios no Festival de Gramado de 2005, Cafundó, de Paulo Betti e Clóvis Bueno, lança luz sobre um personagem pouco conhecido da história brasileira: o “preto velho milagreiro” João de Camargo, que nasceu em 1858 — 30 anos antes da abolição da escravatura no Brasil — e morreu em 1942, aos 84 anos.
Ao narrar a trajetória de João de Camargo, até então praticamente desconhecido pela “história oficial”, Cafundó descreve um período do país pouco explorado pelo cinema: a transição de uma sociedade escravocrata para uma sociedade capitalista. O filme também aborda vários aspectos importantes da cultura brasileira, como a herança da escravidão, as estratégias de sobrevivência diante do abismo social e o sincretismo religioso.
João de Camargo nasceu escravo e, depois da abolição, se tornou capataz de uma fazenda em Sorocaba, no interior de São Paulo. Reza a lenda que, em uma tarde do ano de 1905, ao voltar para a fazenda sob uma forte tempestade, bêbado como de costume, Camargo teve uma visão diante de uma cruz erguida em homenagem a Alfredinho, um garoto morto em uma queda de cavalo. Depois desse episódio, João de Camargo deixou de beber e, acreditando ser capaz de curar os doentes, dedicou-se aos pobres e enfermos, utilizando as águas de um córrego. Aos poucos, sua fama se espalhou e atraiu romeiros de todo o Brasil. Ele terminou construindo uma igreja e fundando uma nova religião,misturando santos e crenças de raízes negras e judaico- cristãs. A trajetória de João de Camargo (interpretado no filme por Lázaro Ramos) é contada como um docudrama, ou seja, uma reconstituição de vários episódios da vida do personagem que recorre, em vários momentos, às técnicas do documentário.
O filme é o reflexo do profundo fascínio que a figura de Camargo exerceu sobre Paulo Betti — ator com grande experiência em cinema que estreia como diretor neste filme, dividindo a responsabilidade com o diretor de arte Clóvis Bueno. “Quando eu era menino, ia visitar meu avô, um imigrante italiano que tinha uma
roça em Sorocaba”, contou Betti, na ocasião do lançamento do filme. “Mas o que me impressionava era a igreja misteriosa do Bom Jesus da Água Vermelha, que ficava no caminho da roça.”
O resultado é um filme realizado com paixão e sensibilidade, que tece relações entre a religião, o imaginário popular e a questão racial no Brasil, contando a rara história de um homem negro que encontrou seu lugar em um mundo de hegemonia branca.
*Pedro Butcher é jornalista e crítico de
cinema, autor do livro Cinema Brasileiro
Hoje (Publifolha, 2006). Atualmente edita
o portal Filme B, especializado no
mercado cinematográfico brasileiro e é
colaborador do jornal Folha de S. Paulo.