
Classificação
16 anos
Segundo longa-metragem de Chico Botelho, Cidade Oculta é uma aventura urbana que conta a história de Anjo, um marginal que vive com Shirley Sombra, estrela de boates decadentes, e com o velho companheiro Japa. O filme se apresenta como uma síntese de variados gêneros cinematográficos, usando a arquitetura futurista de São Paulo como cenário natural da trama. Faz referência a vários elementos da cultura pop, aos filmes noir e foi inspirado no quadrinho ?Spirit?, de Will Eisner. O elenco conta com Carla Camuratti e possui participação especial de Jô Soares, Cláudio Mamberti e do músico Arrigo Barnabé, que também assina a trilha sonora. Cidade Oculta venceu o Rio Cine Festival de 1986, tendo recebido também os prêmios de melhor direção, ator coadjuvante, música original e fotografia.
Filme do Programa 11
Crítica
Exemplo emblemático da estética formalista
Paulo Santos Lima
Um cinema da segunda metade dos anos 80, sobretudo paulista, trouxe uma nova sintonia entre a cinematografia nacional e a mundial. Se no Cinema Novo o foco era o estado de coisas nacional, o diálogo de obras como Anjos da Noite (88), de Wilson Barros, A Dama do Cine Shanghai (87), de Guilherme de Almeida Prado, ou o carioca Eu Sei que Vou Te Amar (86), de Arnaldo Jabor, era com o cinema e seus mecanismos de representação. Uma discussão que já estava no Cinema Marginal (Bang Bang, de Andrea Tonacci) e, parodicamente, no próprio Cinema da Boca.
Entretanto, nos filmes brasileiros dessa safra havia uma questão presente no cinema norte-americano desde o início da década: a estetização extrema, desprezando a luz naturalista e adotando recursos como filtros coloridos e iluminação geometrizada. Cidade Oculta (85), de Chico Botelho, é dos exemplos mais emblemáticos dessa geração formalista.
O diálogo é fortemente calcado na linguagem dos quadrinhos (Spirit, de Will Eisner, no caso), e a estética se remete a gêneros cinematográficos como o noir e os coloridos musicais brega-chiques da Hollywood da virada dos 70 aos 80. Cidade Oculta também se alinha com a música pop. Não à toa, este longa conta com o músico Arrigo Barnabé como protagonista (ele também põe a mão no roteiro, junto com Botelho, Walter Rogério e Luis Gê), além da aparição lapidar de Itamar Assumpção. A trilha sonora, assinada pelo próprio Arrigo, é interpretada por Tetê Espínola, Vânia Bastos e os oitentistas Paulo Barnabé, Patife Band e Goemon.
Anjo (Barnabé), sete anos preso por um assalto fracassado, volta à vida e tenta seguir em frente, longe de problemas. Reencontra seu parceiro de gangue, Japa (um soberbo Celso Saiki), que pede sua ajuda para reaver o dinheiro do roubo, cujo destino é ignorado por todos, mistério que será elucidado pelos vários flashbacks que salpicam a trama (tendência narrativa bem comum na época). O velho amigo japonês lhe apresenta a misteriosa Shirley Sombra, femme fatale perfeitamente clonada por Carla Camurati. A pedra no sapato desses personagens é o policial corrupto Ratão, composição vilanesca de Cláudio Mamberti entre as HQs e o chanchadesco nacional dos anos 50.
Cidade Oculta, ao estilo dos quadrinhos, trabalha com tipos, não com seres. Arrigo Barnabé como Anjo é, na tela, um típico anti-herói das pulp fictions literárias e, ao mesmo tempo, é o compositor Arrigo Barnabé, o que amplia as camadas de significados.
Tal abordagem nada realista e voltada para o artificialismo (que foi apelidada equivocadamente, na época, de ?neon-realismo?) sugere uma desconexão com o real. Na tela, contudo, as imagens dos viadutos e arranha-céus urbanos dizem algo sobre o meio no qual foram criadas. Assim, mesmo sem se pretender um registro realista de São Paulo, Cidade Oculta mostra, em tom cético-pessimista, uma corrupção moral irrefreada, o dinheiro regendo a desgraça humana, marginalizados se devorando, a amizade perdida numa metrópole que, como os vampiros, só acorda quando já é noite e suga o sangue dos seus Anjos e Japas.