Dois documentários que mergulham na cultura e religiosidade nordestinas, particularmente do Cariri cearense, formam este programa. No longa-metragem O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto,o cineasta Rosemberg Cariry resgata a história do movimento religioso liderado pelo beato José Lourenço, destruído em 1936 por tropas de soldados e bombardeio aéreo, deixando o saldo de mais de mil camponeses mortos. Consciente de que a memória dos vencidos é feita de fragmentos, o realizador junta as poucas imagens existentes do acontecimento a depoimentos de sobreviventes e manifestações da cultura popular da região, para acentuar a dimensão política, além de religiosa, dessa experiência de socialismo católico primitivo. Já o curta A Ordem dos Penitentes, de Petrus Cariry, registra a permanência no Nordeste brasileiro de antigas práticas religiosas, que incluem a autoflagelação.
Filmes do Programa 110
Tempo total aproximado do programa: 93 minutos.
Crítica
FÉ E REVOLUÇÃO NO CEARÁ
Cid Nader*
Rosemberg Cariry (diretor do longa-metragem O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto) e Petrus Cariry (realizador do curta A Ordem dos Penitentes) falam de manifestações religiosas cearenses em suas obras. Filho de Rosemberg, Petrus conduz seus relatos por um viés muito próximo da excelência visual. Há evidente tratamento plásticoem seu trabalho, o que dialoga com o que se faz no mundo mais ampliado do cinema. Dessa
forma, a fala em seus trabalhos se posiciona emumplano de complementação às imagens. Rosemberg, por sua vez, conhecido por um discurso contundente — no qual defende, invariavelmente, os valores, tradições e lutas locais —, também se municia de farto material imagético, mas sua costura revela algo muito menos influenciado pelo que é de fora, imprimindo um forte apelo visual ligado à sua região, e completando seus trabalhos com uma oralidade sempre potente.
Em O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, Rosemberg reforça seu modo de fazer cinema e alterna uma explosão de informações por imagens (filmes e fotos antigos, situações atuais e até personagens de cordel para a ilustração estática de fatos) com explosões verborrágicas (são narrados os fatos históricos, obtidos vários depoimentos no mais puro estilo documental/ jornalístico, cantadas canções que inferem opinião particular sobre a história e declamados discursos contra os poderosos e opressores).
A experiência de teor quase socialista relatada pelo filme se deu entre os anos 1920 e 1930, e pode ser definida como uma “experiência agrária”, de forte apego à religiosidade. Egressos de várias regiões do Nordeste se dirigiram às terras de um antigo sítio (Baixa Dantas), na região do Crato, que era comandado pelo beato José Lourenço, sob as bênçãos do intocável padre Cícero Romão Batista. O que surpreende neste trabalho é a quantidade de informações (que conseguem expor com vigor os fatos) e o quase ineditismo dessa situação para quem mora tão distante do Nordeste. Uma foto com três mortos e o discurso “revolucionário” do diretor resumem a intenção do trabalho e deixam clara sua autoria.
Já A Ordem dos Penitentes fala de tradição surgida na região do Cariri durante uma epidemia de cólera, entre 1860 e 1870. Herdando comportamentos da Idade Média, a Ordem resgatou o autoflagelo como tentativa de aplacar a ira divina. Essas procissões de flagelados persistem até hoje e utilizam máscaras e hinos religiosos para que um clima de misticismo poderoso impregne participantes e audiência. Para entender esse clima místico, o curta não se atém apenas aos relatos orais — presentes, mas não em abundância. A edição mistura belas imagens captadas pelas lentes de Petrus, como a construída sob a luz de velas, com pinturas e gravuras clássicas que remetem a temas divinos e de punição. E, ainda, na banda sonora, músicas clássicas de Sinclair e Berlioz e cantos tradicionais dos penitentes.
* Cid Nader Jornalista e crítico de cinema. Editor e
umdos idealizadores do site de cinema
Cinequanon. Colaborador da revista Paisá
e do site Omelete. Edita também o
Cidblogwww.cinequanon.art.br/cidblog.