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Castelo Rá-Tim-Bum, o filme

Programa 111
Inspirado na série de TV que encantou gerações, Castelo Rá-Tim-Bum, o filme conta a história de Nino, um menino de 300 anos que mora em um castelo suntuoso e mágico com seus tios feiticeiros. Nino se acha diferente das outras crianças, e por isso sonha em ter amigos e poder brincar como uma criança normal. Mas quando descobre que sua família está em perigo, sai em busca de ajuda para salvar o Castelo. Em seu longa de estreia, o diretor Cao Hamburger mostra o resultado de sua bem-sucedida experiência em produções voltadas ao público infanto-juvenil, seja em premiados curtas-metragens (como as animações Frankstein Punk e A garota das telas) ou em programas televisivos (caso do próprio Castelo Rá-Tim-Bum e de Disney Club). Um filme com produção e atores impecáveis, que agrada adultos e crianças graças à união eficiente de diversão e proposta educativa. Marco do cinema infantil brasileiro, é um filme lúdico e envolvente capaz de divertir ainda várias gerações.

Filme do Programa 111


Tempo total aproximado do programa: 105 minutos.

Crítica


UM BOM EXEMPLO ISOLADO

Neusa Barbosa*

Inserido numa tradição cinematográfica como a brasileira, que sempre dedicou restrito espaço aos filmes infanto-juvenis, Castelo Rá-Tim-Bum, o filme teve de inventar o próprio caminho. Pisando nas próprias pegadas, o diretor Cao Hamburger partiu da série de sucesso, criada por ele e Flávio de Souza nos anos 1990 e que igualmente marcou época, mas infelizmente não fez escola.

A inexperiência de Hamburger em longa-metragem — foi este o seu primeiro — não constituiu obstáculo para que se lançasse à produção do projeto com a ambição compatível. Dezenas de versões de um roteiro assinado por seis colaboradores — além do diretor —, seis meses de pré-produção, uma equipe de 685 artistas e técnicos e um orçamento de R$ 7,5 milhões garantiram uma estrutura narrativa e visual sólida e atraente.

A seriedade com que se tratou aspectos como escolha de atores — incluindo a ousadia de trocar o protagonista da série de TV, Cássio Scapin, por um garoto desconhecido, Diegho Kozievitch —, além de cenários, figurinos, maquiagem, bonecos, efeitos especiais, some trilha sonora, estendeu-se ao compromisso de manter a história antenada a um sentimento infantil que trafega na fascinação pela descoberta e foge do banal como o diabo da cruz.

O contraste entre a estranheza do mundo bruxo, governado por feitiços, e a suposta normalidade da realidade exterior sustentam o humor sutil, extraído de situações como o desejo inusitado do feiticeirinho Nino de estudar numa escola comum e tomar um prosaico café-com-leite.

Bebendo em referências pop como as séries de TV A família Addams e Os monstros, e antecipando a febre Harry Potter— que invadiria as livrarias e telas em escala planetária nos anos 2000 —, o enredo busca também abrasileirar essas influências. Um bom exemplo está na dupla de apatetados vilões Rato (Matheus Nachtergaele) e Dr. Abobrinha (Pascoal da Conceição), herdeiros dos comediantes das chanchadas dos anos 1940 e 1950, como Oscarito e Grande Otelo.

Ancorada na contemporaneidade, que acirra o contraste coma antiguidade dos feiticeiros, a história costura organicamente referências ao contexto urbano. Mais de uma vez enxerga-se o entorno de prédios e vias expressas de São Paulo e insinua-se a especulação imobiliária, que é a motivação da aliança entre Abobrinha e a bruxa Losângela (Marieta Severo) — uma vilã histriônica descendente direta da Carlota Joaquina, personagem que interpretou no filme iniciador da Retomada, Carlota Joaquina — Princesa do Brasil.

Sendo esta ou não sua intenção, Cao Hamburger fez o cinema anti-Xuxa e Os Trapalhões, em um exemplo que poderia pavimentar uma nova estrada para o cinema brasileiro infantil de qualidade. Entretanto, como isso custa caro, continuam a faltar produtores nacionais para projetos mais sofisticados como este.

Tal como no enredo do filme, parece que só a cada 400 anos um novo alinhamento dos planetas permite que surja no Brasil um filme infantil sem vergonha de assumir-se como tal e que respeite a inteligência desse público mirim, numeroso e quase sempre órfão de boas opções, tanto em cinema quanto na TV.

*Neusa Barbosa Crítica de cinema desde 1990, editora
do siteCineweb e colaboradora da revista
Bravo! . Autora dos livrosGente de cinema
—Woody Allen , John Herbert —
Umgentleman no palco e na vida ,Rodolfo
Nanni — Um realizador persistente e
Fernanda Montenegro (no prelo).

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