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Um céu de estrelas e Onde São Paulo acaba

Programa 112
Um céu de estrelas e Onde São Paulo acabaAmpliar Foto do Programa 112
Classificação
16 anos
Temas
metrópole, violência, mulher, periferia, adolescência
Séries
· Paisagens Brasileiras


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Um céu de estrelas e Onde São Paulo acaba são retratos contundentes das periferias paulistanas. No primeiro — estreia da diretora Tata Amaral no formato longo — uma cabeleireira ganha um prêmio para viajar a Miami e tem de lidar coma reação do namorado, um metalúrgico. A sensação de asfixia da pequena residência é a perfeita metáfora para a vida do casal, encurralado em seus próprios desejos e frustrações. Já Andréa Seligmann apresenta Onde São Paulo acaba, curta de sonoridade e ritmo intensos, que mostra o dia-a-dia de músicos de hip-hop e as intersecções de seu mundo com a violência urbana. Em comum, além da mão feminina na direção, estão a linguagem crua, os temas e a duração de um dia dessas duas histórias urbanas.

Filmes do Programa 112


Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.

Crítica


Sobre verdades e mentiras da imagem
Marcelo Miranda

Uma estranheza fundamental acompanha toda a duração de Um céu de estrelas, primeiro longa-metragem da
diretora Tata Amaral: o filme começa com diversas imagens externas do bairro da Mooca, em São Paulo,em registro preto-e-branco claramente documental; em seguida, entra a ficção inspirada no livro de Fernando Bonassi, com roteiro de Jean- Claude Bernardet e ação totalmente situada em ambiente interno (a casa da protagonista Dalva). Por que registrar o lado de fora (de “verdade”) e depois apenas o lado de dentro (de “mentira”)? A resposta mais simples dada pelo filme é a de fazer do espaço da residência de Dalva um fragmento da realidade, um pequeno ponto dentre todos aqueles exibidos no prólogo.
Apesar do tom de veracidade dominante em boa parte do filme, Tata Amaral se permite lampejos de respiro (alguns beirando o delírio, como o sexo animalesco no corredor da casa) para construir a humanidade daquelas pessoas.

Assim, o espectador toma contato simultâneo com a urgência e angústia da situação exposta no enredo — o namorado Vitor não permite a Dalva viajar para Miami — e também com os sentimentos acumulados naqueles minutos que parecem não passar nunca. A massa de real das imagens iniciais de Um céu de estrelas liberta o filme para voos além do óbvio no desenvolvimento do conflito inicial. Não é preciso Tata reafirmar a cada instante a ambição de transformar a tragédia de Dalva e Vitor em algo retirado das manchetes mais popularescas dos jornais de grandes metrópoles. A informação supostamente está registrada na abertura pré-créditos. Todo o restante se incumbirá de testemunhar a indecisão e a insensatez de uma série de atitudes tragicamente atrapalhadas
dos personagens.

Pois a tragédia torna-se inevitável à medida que Vitor e Dalva não assumem estar no olho de um furacão.
A televisão, nesse caso, é a intermediadora não apenas do público, mas dos próprios personagens. É vendo a transmissão ao vivo do que está acontecendo com ela mesma que Dalva se dará conta de estar sendo oficialmente sequestrada, mesmo negando a informação a si mesma e ao namorado.

E são as imagens televisivas o suporte para a conclusão do impasse, quando finalmente o destino do casal vai se definir: numa esperta jogada de linguagem, Tata Amaral dá ao aparelho de TV todo o poder de explicitar a resolução do filme e, na câmera parada filtrada pela tela menor no longo último plano, mistura realidade, ficção e sensacionalismo de uma só vez. Somente o espectador saberá os detalhes e a verdade por trás da pequena catástrofe familiar ali relatada. A diretora, inicialmente crente no poder do real através das imagens, coloca em xeque, ao final, a autenticidade do que essas imagens são capazes de registrar.
À sua forma, Tata Amaral se posiciona politicamente diante da relação dúbia do que seja, no fim das contas, a verdade do real. Nem tudo que vemos será,de fato, o que aconteceu.

Em sentido contrário, o curta-metragem Onde São Paulo acaba, que complementa este programa, posiciona a ação sempre em ambiente externo e também se sustenta na noção de que a imagem, mesmo questionável, é capaz de definir vidas (e mortes). A trajetória
de garotos da periferia paulistana ganha discretos contornos de tragédia social. O peso dos imensos arranha-céus da cidade grande e a opressão de um universo que parece não ter espaço para todo mundo permeiam um filme de pequenos (porém significativos) fatos do cotidiano.

           
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