O que poderia relacionar filmes como o drama De passagem, longa-metragem de estreia do diretor Ricardo Elias, ambientado na periferia da capital paulista, e Passageiros, comédia em curta-metragem dos gaúchos Carlos Gerbase e Glênio Póvoas? Além da transitoriedade de dois personagens dentro de uma cidade grande, um elo entre eles é a marginalidade. Se o primeiro é pontuado por reminiscências da infância — e também do passado recente que não merece ser rememorado, já que a morte pode ser um bom esconderijo para a vida —, o segundo é o ponto de partida de uma “nova vida”, disparada pela revolta e pelo ultraje. Drama e comédia se encontram neste programa assim como na vida — afinal, são duas faces da mesma moeda.
Filmes do Programa 115
Tempo total aproximado do programa: 94 minutos.
Crítica
Idas e vindas na cidade grande
Marcelo Miranda
A estreia de Ricardo Elias em longa-metragem é um pequeno conto íntimo-familiar bastante simples: dois jovens precisam atravessar a periferia de São Paulo para reconhecer o corpo do irmão de um deles. O que torna De passagem um filme de notável sensibilidade está na construção dos personagens e na interação da dupla protagonista com o ambiente que a cerca — no caso, a urbanidade desmedida da maior metrópole latino-americana. Para além de um estudo sociológico ou mesmo de algum discurso ideológico, o filme se configura como a trajetória daqueles dois rapazes num determinado espaço de tempo, em paralelo a um momento marcante de suas infâncias,mostrado em flashback durante a narrativa.
Logo de início, Elias caracteriza os rapazes em cena: Jeferson, interpretado por Silvio Guindane, é “estrangeiro” em seu próprio mundo, o garoto que renegou a marginalidade e foi estudar num colégio militar; o outro, Kennedy (vivido por Fabio Nepô), representa quem seguiu o suposto curso natural do ambiente onde nasceu e se tornou traficante e usuário de drogas. O reencontro desses antigos amigos acontece quando Washington — irmão de Jeferson — é encontrado morto num bairro bastante distante de onde morava. Precisando ir de um extremo a outro da cidade, a dupla principal retomará o diálogo interrompido quando ainda crianças.
Um dos pontos mais interessantes — e, à sua maneira, ousado — é que, ao fim dessa viagem, quando a situação estiver resolvida, Jéferson e Kennedy serão basicamente os mesmos. Reza a cartilha de filmes cuja temática é a transição que corpo e mente em movimento devem sofrer modificações entre o ponto de partida e o de chegada. À parte a própria situação-limite mostrada em De passagem, nenhum dos dois jovens deixa de ser quem era, nem durante nem depois da trajetória. Antes de ser uma limitação do filme, essa pequena trapaça de Ricardo Elias reforça uma visão longe de qualquer tipo de determinismo ou demagogia por parte do cineasta. Ele não está interessado em ensinar nada ao público, muito menos aos seus personagens: por não se achar maior que eles, e por isso mesmo mostrar-se respeitoso com ambos, o realizador os deixa respirar por conta própria, em impor sentimentos externos que não tenham se manifestado no decurso natural do filme.
Até por esse desprendimento, De passagem possui momentos isolados de muita força, caracterizados por uma simplicidade apenas aparente. São os casos da paquera no trem — que serve de “respiro” narrativo, propiciando um instante lúdico, divertido e muito verdadeiro dentro da realidade exposta — e do angustiante plano de exatamente um minuto com a câmera fechada no rosto de Silvio Guindane, enquanto ele espera o amigo ajudá-lo no reconhecimento do corpo do irmão. Estalos como esses tornam De passagem um trabalho de comovente impacto.
O curta Passageiros, incluído neste DVD, trata igualmente da transitoriedade de dois personagens dentro da cidade — aqui, Porto Alegre. Porém, as intenções dos diretores Carlos Gerbase e Glênio Póvoas são menos expor sentimentos, como em De passagem, do que fazer um discurso social a respeito da marginalidade e exclusão. Dentro de suas escolhas, o filme, de rápida resolução, possui contornos de interesse especialmente por alguns diálogos) e permanece incomodamente atual.