Em O dragão da maldade contra o santo guerreiro, o matador de cangaceiros Antonio das Mortes (já conhecido em Terra em transe, filme anterior do diretor Glauber Rocha) vai à cidade de Jardim das Piranhas, contratado para matar um bando de jagunços chefiados por Coirana, que se diz herdeiro de Lampião. Utilizando tons alegóricos, o diretor Glauber Rocha — em seu primeiro longa-metragem colorido (com imagens assinadas por Affonso Beato) — mistura influências que vão da literatura de cordel à ópera, passando por elementos do western norte-americano, para construir o que é considerado por muitos como sua obra-prima, merecedora dos prêmios de melhor direção e da crítica internacional no Festival de Cannes de 1969. Como apontou a crítica, contradição e violência encontram o êxtase e a beleza em O dragão da maldade contra o santo guerreiro.
Filme do Programa 116
Tempo total aproximado do programa: 99 minutos.
Crítica
Neo-western dialético
Marcus Mello
Quarenta anos depois de sua estréia nos cinemas, O dragão da maldade contra o santo guerreiro finalmente pode voltar a ser apreciado da forma como Glauber Rocha o concebeu. Um minucioso processo de restauração recuperou as cores da fotografia de Affonso Beato, revelando para as novas gerações a plasticidade exuberante deste neo-western violento e excessivo, uma indiscutível obra-prima do cinema brasileiro moderno.
Primeiro longa-metragem colorido de Glauber Rocha, O dragão da maldade contra o santo guerreiro é um dos projetos cinematográficos mais ambiciosos do diretor baiano. Lançado em 1969, no auge da ditadura militar, após a publicação do AI-5, o filme procurava traduzir para o grande público as ideias do Cinema Novo, apresentadas numa trama que incorporava elementos do western americano e da literatura de cordel. Glauber resgata um dos personagens de Deus e o diabo na terra do sol (1964), o matador de cangaceiros Antônio das Mortes (Maurício do Valle), cuja má consciência lhe faz lamentar seu passado de sangue a serviço dos poderosos. Ao testemunhar o confronto de um coronel (Joffre Soares) com a população miserável de um pequeno vilarejo no interior do Nordeste, Antônio das Mortes poderá enfim se redimir, aliando-se a um professor (Othon Bastos), a Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) e a Negro Antão (Mário Gusmão) — que representa São Jorge — para acabar com a injustiça no sertão. O tom alegórico e a encenação antinaturalista não atenuam a radicalidade do discurso político do filme, que fazia a defesa da reforma agrária e pregava a ação revolucionária como única possibilidade de enfrentar as desigualdades sociais do Brasil.
O esforço de Glauber foi duplamente recompensado. Além de ser o maior sucesso de público de sua carreira, O dragão da maldade contra o santo guerreiro conquistou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, transformando-o em autor de prestígio internacional. Tamanha virulência crítica e repercussão midiática, no entanto, foram malvistas pelo governo militar, obrigando o diretor a exilar-se na Europa. Glauber só voltaria a dirigir outro longa-metragem no Brasil dez anos mais tarde, A idade da terra (1980), justamente seu filme-testamento, lançado um ano antes de sua morte, ocorrida em22 de agosto de 1981.
Um ponto alto de O dragão da maldade contra o santo guerreiro é a presença de Odete Lara, interpretando a esposa adúltera do coronel. São da atriz os dois momentos mais sublimes do filme: o assassinato do amante (Hugo Carvana) a punhaladas e a cena em que ela caminha pelo sertão, com um longo vestido roxo e um buquê de flores de papel nas mãos. Duas sequências dignas de antologia, que ilustramos paradoxos do cinema de Glauber Rocha, em sua permanente oscilação entre beleza e horror.