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Fonte da saudade e Balada das duas mocinhas de Botafogo

Programa 119
O cinema e a psicanálise nasceram na mesma época, no final do século 19, e desde então nutrem um grande interesse mútuo. Os dois filmes deste programa mostram que o resultado desse encontro pode gerar filmes de ótima qualidade. Fonte da saudade, longa-metragem dirigido por Marco Altberg, é uma adaptação do romance premiado de Helena Jobim e reúne três pequenas histórias vividas por mulheres. A atuação de Lucélia Santos nos três papéis principais fortalece a apresentação dos conflitos internos dessas mulheres assombradas pelas lembranças infantis do pai. Já Balada das duas mocinhas de Botafogo, curta-metragem de Fernando Valle e João Caetano, é inspirado no poema de mesmo nome de Vinicius de Morais e apresenta a vida de duas irmãs abandonadas pelo pai na infância. São dois filmes provocativos, que instigam o espectador a adentrar nos tortuosos caminhos da mente humana.

Filmes do Programa 119


Tempo total aproximado do programa: 94 minutos.

Crítica


A SOLIDÃO CONJUGADA NO FEMININO

Neusa Barbosa*

O auge do feminismo e do culto à psicanálise já haviam ficado para trás quando a escritora Helena Jobim lançou seu livro Trilogia do assombro, no final dos anos 1980, fornecendo a matéria-prima para a discussão sobre a nova identidade feminina contemporânea e urbana que percorre Fonte da saudade, terceiro trabalho do diretor carioca Marco Altberg.

Finalizado num tempo de profunda crise nas condições nacionais de produção, o filme afirmou uma vertente própria ao constituir um contraponto intimista-existencial ao cinema erótico sofisticado de Walter Hugo Khouri.

Afastando o risco de uma fragmentação dramática, que poderia surgir da divisão do foco em três protagonistas, o roteiro de Júlia de Abreu constroi a unidade a partir do parentesco emocional entre elas. A presença de uma mesma atriz, Lucélia Santos, nos três papéis é, aliás, a mais cristalina metáfora não só da divisão interior vivida pelas mulheres daquele período como de suas possibilidades de intercambiamento.

A escolha da atriz também tinha um significado próprio. Evoluindo da candura vitimizada de sua maior heroína na TV, na novela A escrava Isaura (1976), que lhe deu projeção internacional, Lucélia partiu para papéis ousados em histórias baseadas em Nelson Rodrigues — como Engraçadinha e Bonitinha mas ordinária, ambos de 1981. Era, assim, a atriz ideal para encarnar a mulher de muitas faces, superando na tela a heroína sensual de tantas obras do Cinema Novo — que a presença, neste elenco, de Norma Bengell, estrela maior da obra lançadora do movimento, Os cafajestes(1962), contribui para lembrar.

Vincada pela ausência paterna, a psicologia das três personagens oscila na tensão de uma intensa busca de identidade. Escritora, Bárbara procura a si mesma tanto nos textos que escreve de madrugada quanto nas relações com sucessivos homens, incapazes de enxergá-la por inteiro. A porta de saída está na desmitificação de um romantismo que ainda resiste.

Semelhante, mas de outra ordem, a insatisfação que atinge Guida, esposa de um homem rico (Cláudio Marzo), abre caminho para o desmonte do modelo de casamento herdado de outras gerações. A esta dona de casa a quem aparentemente não falta nada, falta o principal — um lugar próprio no mundo.

Num tempo em que se preparava a queda de outras utopias, inclusive as políticas, inteligentemente o filme sinaliza uma dessacralização da terapia, substituto moderno da religião, que até funciona como ferramenta de autodescoberta para Guida, mas não oferece alívio à terceira personagem, a jovem Alba. Incapaz de reconstruir a memória de um trauma passado, ela percorre as ruas da cidade reinventando uma fantasia sem começo nem fim como substituto da dor.

A bela trilha sonora de Tom Jobim cria outra costura dramática que contribui para eliminar as fronteiras entre as histórias. Uma trilha original, aliás, para a qual Jobim compôs dois boleros, um tango e uma valsa (com solo ao piano do próprio músico).

Inspirado num poema de Vinicius de Moraes, o curta Balada das duas mocinhas de Botafogo insere um travo mais amargo nesta reflexão sobre a condição feminina. Sem diálogos, com narração em off do compositor Edu Lobo, o filme delimita um mundo solitário em que se encerram duas jovens irmãs (Guta Stresser e Fernanda Boechat) — cuja vida boêmia frenética é a dolorosa exposição da aridez de sentimentos deste tempo e lugar.

*Neusa Barbosa Crítica de cinema desde 1990, editora
do site Cineweb e colaboradora da
revista Bravo!. Autora dos livros Gente
de cinema —Woody Allen, John Herbert
— Umgentleman no palco e na vida, Rodolfo
Nanni — Umrealizador persistente

Comentários deste programa

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  1. Jutahy de alencar Junior
    Gostei muito do site e como insentivo pra leitura e informação ,tentei baixar algo mais não consigo ou não tem download fiquei só no gostinho !
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