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Iracema, uma transa amazônica

Programa 120
Iracema, uma transa amazônicaAmpliar Foto do Programa 120
Classificação
16 anos
Temas
prostituição, caminhoneiro, transamazônica, madeireira
Recursos Extras
Closed Caption Audio Description
Séries
· Brasil diverso
· Cinema brasileiro - história, trajetória e personagens


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Em 1974, em plena ditadura, quando o governo militar alardeava a propaganda da construção do “Brasil Grande”, Jorge Bodanzky, Orlando Senna e Wolf Gauer filmam Iracema — uma transa amazônica, ficção com uma feição documental que se tornou marco na cinematografia brasileira. O filme faz um contraponto à propaganda oficial da época sobre a Amazônia, revelando as queimadas, o trabalho escravo e a prostituição infantil através da história da menina ribeirinha Iracema, que, atraída pela cidade grande e pela lábia do motorista de caminhão Tião Brasil Grande, acaba se prostituindo às margens da rodovia Transamazônica. Proibido durante seis anos no Brasil, recebeu inúmeros prêmios em festivais internacionais. Em 1981, foi o grande vencedor do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Filme do Programa 120


Tempo total aproximado do programa: 95 minutos.

Crítica


Ficção e documentário em transe na amazônia
Cid Nader*

A política sempre interagiu comesse que é um dos títulos mais cultuados pela cinefilia brasileira. O nome mais lembrado na direção de Iracema, uma transa amazônica é o de Jorge Bodanzky, mas par-a-par com ele, como diretor e idealizador, além de autor do enredo, também esteve Orlando Senna (responsável entre 2003 e 2007 pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura). Essa política talvez seja o mote maior na razão de ser desse filme — proibido por cerca de sete anos pela censura do governo do regime militar, fato que o tornou mitológico.

Os realizadores ingressaram Amazônia adentro para mostrar a realidade de uma região desde sempre saqueada, usurpada, esquecida socialmente,mas que, na década de 1970, serviria como propaganda ideal de um governo ditatorial que pregava um país que caminhava a passos firmes rumo ao progresso: a peça de propaganda chamava-se Transamazônica, e, por ela, Bodanzky e Senna transitaram com seus personagens para desmascarar falácias.

O filme transgrediu linguagens, inovou e provocou. Sua figura principal, Tião Brasil Grande (Paulo César Pereio), constituiu um personagem talvez inédito. Apesar de ser obra de ficção, serviu também ao intuito dos diretores de registrar depoimentos dos moradores, ou passantes, da região, cumprindo a função de um documentarista esperto, com um inequívoco tom provocador. O “personagem”, um caminhoneiro, é um tanto reacionário e aproveitador — compra madeira proibida e rouba gado na estrada —, ao mesmo tempo em que fala que o país tem de seguir em frente e que acredita no Brasil como o país do futuro. Ao juntar personagem de caráter tão questionável ao discurso que o governo de então pregava, ficava óbvio que impune o filme não passaria. Rodado em 1974, só conseguiu liberação oficial em 1979, sendo lançado em 1981.

O chamariz mais visível da obra foi a prostituta Iracema interpretada de maneira mágica por Edna de Cássia — que pretendia ingressar na carreira de atriz, coisa que não conseguiu), com uma atuação realista e desnudada que coadunou demais com a aura de filme atípico e transgressor. Mas a grande sacada está no modo como as lentes e os microfones se apoderam — poder-se-ia dizer que é um trabalho antropológico, social — das figuras e dos ambientes. No início do filme, um barquinho faz a representação da ligação física característica da região, e a partir dele se veem faces marcadas, pequenos cais, mercados... Do outro lado, como algo não palpável, mas também cumprindo a missão de ligar as regiões e pessoas, surge o som das rádios locais, que falam das festas, transmitem recados, tocam músicas. A anteposição entre a pureza fluvial/sonora e a rudeza de uma estrada impensável; a cena final com todos obviamente embriagados em meio a muita pobreza, com a imagem de Iracema “envelhecida” e xingando Tião, talvez sejam os dois grandes marcos de um filme que adentrou a região com a consciência do que queria contar e mostrar ao mundo.

*Cid Nader Jornalista e crítico de cinema. Editor
e um dos idealizadores do site de cinema
Cinequanon. Colaborador da revista
Paisá e do site Omelete. Edita também
o “Cidblog” (www.cinequanon.art.
br/cidblog).

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