Apresentando imagens bem construídas e emolduradas por diálogos curtos que definem os sentimentos dos personagens e localizam temporal e socialmente sua história, o longa-metragem Marcelo Zona Sul representa a estréia feliz e definitiva de dois grandes nomes do cinema brasileiro: o diretor Xavier de Oliveira e o ator Stepan Nercessian. Este, no papel de Marcelo, personagem central do filme, tem uma interpretação brilhante, que vai da alegria ingênua e do comportamento transgressor da adolescência até o tédio gerado pelo conflito de gerações, mantendo-se fiel à problemática infanto-juvenil. A obra focaliza sutilmente questões como as relações sociais da classe média, o crescimento urbano e o conflito de sentimentos e convicções que se confundem neste período da vida, nos levando a vivenciar os sentimentos e aspirações de um jovem, suas relações com o grupo e a família, numa passagem bastante convincente da adolescência à maturidade.
Filme do Programa 123
Tempo total aproximado do programa: 104 minutos.
Crítica
A História de todos nós
Gustavo Galvão*
Era uma vez, na aula de geografia... Ou de história, ou qualquer coisa. Não faz a menor diferença para Marcelo, 16 anos. Ele chega atrasado à aula, senta-se e vai logo acendendo um cigarro — para espantar o tédio. Os colegas do lado pedem uma tragada. Então, uma cortina de fumaça se espalha pela sala. Onde está o professor numa hora dessas? Para Marcelo, realmente não faz diferença.
Marcelo Zona Suls e desenrola no ritmo desse garoto: leve e descompromissado. O primeiro longa de Xavier de Oliveira está no limite do pueril, é quase um playground para Stepan Nercessian, Françoise Forton e uma penca de atores novatos à época. E é isso que o torna tão interessante, passados 40 anos de sua estreia. Por não se prestar a concessões de qualquer tipo, o filme atinge a essência sem fazer alarde. Quando menos se espera, tem-se um retrato honesto da transição da adolescência para a idade adulta, ambientada no Rio de Janeiro de fins dos anos 1960.
Há uma indisfarçável fascinação do diretor Xavier de Oliveira pela Nouvelle Vague francesa, seja pela fluidez dos movimentos e da montagem, seja pela cumplicidade com uma juventude que não se encaixa em padrões. Em muitos aspectos, o longa-metragem é a versão carioca de Os incompreendidos (François Truffaut, 1959). Antoine Doinel, protagonista deste último, e Marcelo são irmãos de espírito. Ambos transitam à margem do mundo dos adultos — o qual é representado por bedéis rigorosos, professores sem carisma e pais displicentes. De certo modo, os dois personificam uma postura libertária, incompatível com normas sociais, embora presente na alma de todos que já foram jovens. Assim como acontece com Doinel, o herói juvenil por excelência, Marcelinho perde a inocência à força. Em 50 minutos isso fica evidente. Não por acaso, a trama adquire tons menos luminosos. Fica mais dura, melancólica. As canções do grupo Liverpool deixam de soar alegres e chega o momento em que todos exigem maturidade do garotão de Copacabana que custa a assumir responsabilidades (foram 27 expulsões de aula em um ano!).
Felizmente, Xavier de Oliveira se mantém fiel ao personagem em seus momentos mais tristes, a ponto de filmar tudo com uma câmera posicionada à altura dos olhos dele. Nem alta nem baixa, a câmera fica no meio-termo. É assim na festa que o pai organiza para comemorar a promoção no trabalho, ou na conversa com a psicóloga da escola. É significativo que essa câmera se afaste no final, como se esse mesmo personagem estivesse a ponto de desaparecer. De fato, ele desaparece.
O adolescente que dominava o mundo ao seu redor é sugado pelas normas, some na cidade depois da tentativa de fuga frustrada para São Paulo com o inseparável amigo Zé Miguel. Ao deixar de transitar à margem do mundo dos adultos e entrar nele de uma vez por todas, Marcelo deixa para trás o que tinha de mais fascinante: o frescor irresponsável.
*Atuou no jornal Correio Braziliense como crítico e repórter, entre 1996 e 2003. Formado em jornalismo pela Universidade de Brasília, fez especialização em cinema na Espanha. É curador de mostras audiovisuais e
dirigiu sete curtas de ficção, entre eles o premiado A vida ao lado 2006, exibido em 25 festivais no Brasil e no exterior.