Em No rio das amazonas, o diretor Ricardo Dias nos leva a uma viagem pela Amazônia, de Belém a Manaus. Tendo por guia o naturalista Paulo Vanzolini, somos apresentados a particularidades da ecologia da região, com ênfase no modo de vida das populações ribeirinhas do Baixo Amazonas. Realizado com uma câmera extremamente gentil e delicada, mas nunca alienada (apesar da parcialidade assumida pelo diretor, própria de qualquer obra que dependa da subjetividade), o filme nos permite sair do lugar comum que hoje é a discussão em torno da grandiosa Amazônia brasileira. Completa o programa, com a mesma delicadeza, o curta-metragem Cidadão jatobá. Dirigido por Maria Luiza Aboim e belamente fotografado, o filme revela a arte e a ciência dos indígenas do Alto Xingu, que para construir uma canoa de jatobá provam não ser necessário destruir a natureza.
Filmes do Programa 124
Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.
Crítica
Viagem pela sabedoria
Pedro Butcher*
O documentário No rio das amazonas acompanha o cineasta Ricardo Dias e sua equipe em uma incursão de barco, de 40 dias, pela região do Baixo Amazonas. Para guiar esta viagem, Dias escolheu um personagem muito especial: o compositor e zoólogo Paulo Vanzolini que, apesar de ser mais conhecido por seu talento musical (Ronda é sua canção mais popular), revela-se também um exímio especialista na fauna, na flora e, sobretudo, no modo de vida da região.
Seguindo uma estrutura aparentemente tradicional, intercalando entrevistas, depoimentos e imagens colhidas ao longo da viagem, o longa-metragem absorve vários elementos do documentário moderno. Em primeiro lugar, o diretor faz questão de narrar o filme em primeira pessoa, negando a costumeira impessoalidade do gênero e assumindo que seu filme é apenas um ponto de vista entre muitos outros possíveis.
Outro elemento importante é que o realizador consegue dar o mesmo peso ao “objeto” estudado e à voz do “especialista”. As palavras de Paulo Vanzolini têm a mesma importância que as entrevistas realizadas com os moradores da região, como Raimundo e Joaquim. São sabedorias diferentes e complementares — uma não é superior à outra. Isso se explica, em parte, pela própria curiosidade de Vanzolini — que é genuína e reflete a paixão pelo “objeto” — e também pela abertura que os moradores locais têm em relação à presença da câmera.
No rio das amazonas não fala só da natureza local,mas, sobretudo, da presença humana na região, narrada a partir da necessária perspectiva histórica, sem perder de vista o tempo presente. A diversidade biológica é tão fascinante quanto a sabedoria e a tecnologia resultantes da mistura de culturas do índio e das várias populações que migraram para a região. A canoa, por exemplo, é como um“prolongamento do corpo humano”, nas palavras de Vanzolini, “algo difícil de ser entendido pelo homem urbano”.
A construção de uma canoa, aliás, é o tema central de Cidadão jatobá, de Maria Luiza Aboim, curtametragem que também faz parte deste programa. Todo realizado no Alto Xingu, o filme traz imagens da complexa fabricação da embarcação a partir da retirada da casca de uma árvore. Enquanto observamos o trabalho dos índios, ouvimos o depoimento de Marcos Terena, que relata suas dificuldades em relação à própria identidade. Terena quer estudar e se profissionalizar, mas, para tanto, precisa pedir sua emancipação e abdicar de sua condição indígena. “Não me vejo como cidadão brasileiro, mas como tutelado do estado”, ele afirma. No aparente “descompasso” entre o que se vê e o que se ouve, Cidadão jatobá também apresenta inovações ao formato documental.
Cada um a seu modo, No rio das amazonas e Cidadão jatobá discutem questões fundamentais que estão ausentes da mídia e do cotidiano de um Brasil urbanizado, e que tem tanta dificuldade de olhar para si e compreender sua infinita complexidade.
* Pedro Butcher é jornalista e crítico de cinema, autor do livro Cinema Brasileiro Hoje (Publifolha, 2006). Atualmente edita o portal Filme B, especializado no mercado cinematográfico brasileiro e é colaborador do jornal Folha de S.Paulo.