Onde estás felicidade?, produção da Cinédia e do pioneiro Adhemar Gonzaga, é um dos precursores da industrialização do cinema brasileiro. Baseado em peça teatral homônima, de Luís Iglezias, tem em seu elenco Alma Flora, Rodolfo Mayer, Paulo Gracindo, Dircinha Batista, Armando Braga e Grande Otelo, aqui com apenas 23 anos.
No filme, uma cantora casada com um operário ascende socialmente e passa a conviver com a alta sociedade carioca. O melodrama reforça o cunho moralista da época, contrapondo os hábitos e costumes de moradores do subúrbio e da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Vale destacar o trabalho do maestro Radamés Gnatalli, fotografia e câmera de Afrodísio de Castro, som de Hélio Barroso e roteiro e direção do ator Mesquitinha, um dos maiores comediantes da época.
Filme do Programa 125
Tempo total aproximado do programa: 86 minutos.
Crítica
Raridade preservada
Marcus Mello*
Entre 1930 e 1939, o Brasil produziu apenas cerca de 80 longas-metragens de ficção. Foi um período em que o país se adaptava ao cinema sonoro e lançava as bases para a criação de uma indústria capaz de fazer frente às produções de Hollywood. Como bem observou o historiador Salvyano Cavalcanti de Paiva, “era um cinema de fé e esperança”, comprometido com o projeto nacional de modernização implantado pelo governo Vargas. É nesse contexto que nasce a Cinédia, produtora fundada em 1930 pelo jornalista e cineasta Adhemar Gonzaga (1901-1978), com a ambição de tornar-se o grande estúdio de cinema do país. Dos diversos títulos produzidos pela Cinédia ao longo da década de 1930, a comédia Onde estás felicidade? se destaca como uma das empreitadas mais ambiciosas de Gonzaga, além de ser um dos raros filmes brasileiros da época que conseguiu sobreviver à destruição e chegar intacto aos nossos dias.
Terceira investida na direção do ator Mesquitinha (1902-1956), Onde estás felicidade? estreou nos cinemas em abril de 1939. Baseado em uma peça teatral de sucesso, de autoria de Luiz Iglesias, o filme tem sua primeira parte ambientada em uma casa de subúrbio no Rio de Janeiro, onde vive o casal Paulo e Noêmia (Rodolpho Mayer e Alma Flora), junto com uma tia solteirona (Luiza Nazareth). Noêmia é uma cantora de rádio em ascensão, que deseja mudar-se para Copacabana a fim de conviver com a “alta sociedade”. Na segunda parte do filme, o casal e a tia transferem-se para um elegante apartamento em Copacabana, sempre cheio de amigos fúteis e interesseiros. A rotina mundana levará o casal à separação. No último ato, os personagens voltam à casa de subúrbio, onde acontece a reconciliação e o inevitável final feliz. Apesar de sua estrutura excessivamente teatral comprometer a fluência da narrativa, o filme traz interessantes comentários sobre a emancipação feminina e o adultério (temas tabu na conservadora sociedade brasileira da época), e apresenta alguns diálogos deliciosos, típicos das comédias de situação hollywoodianas, nas quais a direção claramente busca inspiração.
Onde estás felicidade? reuniu em sua equipe artistas de prestígio no rádio e no teatro. A começar pelo próprio Mesquitinha, naquele momento reconhecido como o principal ator cômico do Brasil (posto que perderia para Oscarito alguns anos depois). Além de dirigir o filme, Mesquitinha também interpreta o papel de um marido submisso, constantemente humilhado por sua esposa grã-fina. O produtor Adhemar Gonzaga escalou para o elenco várias estrelas da Rádio Nacional, emissora que atraía a audiência de ouvintes de todo o país (com um alcance comparável ao da Rede Globo hoje). Embora boa parte desses nomes tenha caído no esquecimento, muitos deles desenvolveram longas carreiras, como o protagonista Rodolpho Mayer, a cantora Dirce Baptista e os atores Grande Otelo e Paulo Gracindo. Gracindo está hilário interpretando o afetado André, colunista social que descreve as festas da alta sociedade carioca sempre fazendo uso de estrangeirismos. E Otelo, com apenas 23 anos de idade, em seu terceiro filme, já rouba todas as cenas de que participa.
A assinalar ainda a colaboração do maestro Radamés Gnatalli, responsável pela trilha sonora deste Onde estás felicidade?, que ganha merecida edição em DVD no ano de seu 70º aniversário de lançamento.
* Crítico de cinema, editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.