Homem das letras, do jornalismo, da televisão e do cinema, Vladimir Herzog foi também vítima de um dos regimes de exceção mais cruéis da América Latina: a ditadura militar brasileira, iniciada com o golpe de março de 1964. Discípulo de Fernando Birri, o mestre do documentarismo argentino, com quem aprendeu lições fundamentais sobre a sétima arte, Vladimir Herzog morreu covardemente torturado nos porões da repressão em outubro de 1975.
Neste programa, duas obras são reunidas e possibilitam relembrar parte da história recente brasileira: Vlado, trinta anos depois, realizado por João Batista de Andrade, filme que permite conhecer, inclusive, o pouco comentado jogo de poder por trás da morte de Herzog; e Marimbás, um dos primeiros documentários nacionais feitos com som direto, o único filme dirigido pelo próprio jornalista.
Filmes do Programa 132
Tempo total aproximado do programa: 95 minutos.
Crítica
A história vivida na carne
Pedro Butcher*
O documentário Vlado, trinta anos depois, de João Batista de Andrade, é bem mais do que uma simples homenagem ao jornalista e cineasta Vladimir Herzog (autor do curta-metragem Marimbás, incluído neste programa). O filme é, sobretudo, o registro da memória de um dos períodos mais complexos e sombrios da história recente do Brasil, contado por pessoas que viveram esse momento na carne.
Em outubro de 1975, Vladimir Herzog, que na época trabalhava como editor de telejornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi preso e levado para o prédio do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações / Centro de Operações de Defesa Interna) —, de onde saiu morto. Segundo nota oficial, Herzog teria se suicidado, o que mais tarde se revelou uma farsa para encobrir a morte em consequência de sessões de tortura.
Nesse período, a ditadura militar passava por um momento de intensa disputa interna. Enquanto setores das forças armadas iniciavam um lento processo de abertura, defensores de sua continuidade recrudesceram a repressão. Como os movimentos de resistência armada já haviam sido debelados, o foco voltou-se para intelectuais de esquerda, principalmente membros do Partido Comunista Brasileiro — caso de Herzog.
A reação à morte de Herzog foi tão intensa que acabou fortalecendo o movimento pela abertura democrática. No dia 31 de outubro, um grande culto ecumênico, que reuniu milhares de pessoas na Catedral da Sé, em São Paulo, marcou época.
O cineasta João Batista de Andrade começa seu documentário justamente diante da Catedral da Sé. Em um depoimento pessoal, ele explica ter sido amigo de Herzog e que ficou tão chocado com sua morte na época que não conseguiu filmar nada. “Deveria ter feito esse filme há muito tempo”, diz.
Vlado é construído a partir de dezenas de depoimentos — muitos deles emocionados — de amigos e colegas de trabalho, além da mulher de Herzog, Clarice, citada no verso da música “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc. Pela voz de personalidades como o arquiteto Ruy Ohtake (amigo de colégio), o jornalista Paulo Markun (preso e torturado como ele), o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel (figuras fundamentais para a realização do culto na Catedral da Sé), conhecemos com clareza e objetividade a trajetória de Herzog, os fatos que levaram à sua prisão e as consequências de sua morte.
Antes de se dedicar à televisão, Herzog foi um dos alunos do histórico seminário ministrado em 1962 pelo sueco Arne Sucksdorf, frequentado por vários diretores que se tornariam nomes importantes do cinema novo. Sucksdorf trouxe ao Brasil dois gravadores Nagra, equipamento portátil que estava revolucionando o cinema por permitir a gravação direta do som, e ensinou aos alunos os fundamentos do Cinema Verdade. Foi deste seminário que saiu Marimbás, curta de Vladimir Herzog sobre o cotidiano de pescadores do Posto 6 da praia de Copacabana, no Rio — considerado o primeiro documentário brasileiro com tomadas em som magnético utilizando o gravador Nagra.
* Pedro Butcher é jornalista e crítico de cinema, autor do livro Cinema Brasileiro Hoje (Publifolha, 2006). Atualmente edita o portal Filme B, especializado no mercado cinematográfico brasileiro e é colaborador do jornal Folha de S.Paulo.