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Anos de chumbo

Programa 138
Anos de chumboAmpliar Foto do Programa 138
Classificação
14 anos
Temas
ditadura, tortura, violência, repressão, militar
Recursos Extras
Closed Caption Audio Description
Séries
· Visões políticas


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Este programa traz, em diferentes linguagens, seis curtas-metragens que buscam refletir sobre o poder e os chamados “anos de chumbo” no Brasil, período mais repressivo da ditadura militar (1964-1985) que teve início com a promulgação do AI-5, em 1969. Marcado pela violência e pela falta de limite dos ocupantes do poder, os cidadãos brasileiros tiveram seus direitos políticos e individuais suprimidos e o país viveu um período de censura, falta de democracia e perseguição política aos que eram contra o regime militar.
O programa tenta reconstruir o quebra-cabeça da trilha do poder e da resistência. Uma animação sobre a tirania faz uso da metáfora e da ironia para mostrar o quanto é difícil moldar a natureza humana. As histórias reais dos desaparecidos, dos mortos, dos suicidados, dos sobreviventes se juntam a ficções que mostram que a liberdade sempre surge como fator de resistência social e que a rebeldia é estratégia de luta e de conquista.

Filmes do Programa 138


Tempo total aproximado do programa: 107 minutos.

Crítica


Olhar a ditadura sem patrulhamento
Marcelo Miranda*

A abordagem do regime militar (1964-1985) é um dos maiores tabus do cinema brasileiro. Talvez pelo trauma da ditadura, pela complexidade de se falar de tortura, perseguição política, arbitrariedades, lutas armadas – todos estes (e tantos mais) elementos ainda parecem muito recentes, mesmo um quarto de século depois da redemocratização. Até por isso, o programa de curtas “Anos de Chumbo” ganha importância especial ao reunir seis filmes que tratam a questão em diferentes linguagens, tendo como eixo o respeito pela memória em uns, e o olhar irônico e debochado em outros.
De lembranças, por exemplo, é que se formam os mosaicos de depoimentos registrados em Um filme de Marcos Medeiros, Vala comum e Clandestinos. São três documentários de registro mais tradicional – o que não significa menos contundente – que buscam em personagens específicos a chave para se compreender (ou, pelo menos, rememorar) algumas das principais angústias do período.
Em especial Ricardo Elias, diretor de Um filme de Marcos Medeiros, que utiliza a expressividade do preto-e-branco e a descrição detalhada das características de seu biografado para falar de uma coletividade que vai muito além do personagem-título. Justamente por isso, o filme consegue abarcar elementos bastante profundos do que representou a ditadura para uma parcela de pessoas que se dispôs a lutar contra ela. Por sua vez, Vala comum aposta na força das imagens captadas na tentativa de valorizar a descoberta trágica cuja investigação o curta de João Godoy acompanha.
Pelo viés da ficção, Um tiro na asa entra na seara do delírio e do simbolismo sem abrir mão do peso da memória. Narrando o mergulho no inferno que é a mente do protagonista, a diretora Maria Emília de Azevedo consegue, ao mesmo tempo, fugir de qualquer possibilidade de realismo na narrativa e ser profundamente verdadeira e contundente no discurso político do filme.
Partindo para outras possibilidades de abordagem da ditadura, a ficção O dia em que Dorival encarou a guarda, de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, e a animação O reino azul, de Otto Guerra, utilizam elementos não explicitamente identificados com o regime, porém fortemente arraigados no imaginário em torno dele – e dos horrores que o cercam.
Assim, quando o prisioneiro do curta de Furtado e Goulart não consegue tomar um simples banho devido ao excesso de autoridades que o proíbem de sair da cela, há referência imediata aos desmandos das forças de repressão. Já o imperador do desenho de Guerra repentinamente tem uma epifania que muda toda a rotina do universo criado pelo diretor, o que gera algumas piadas de fundo escatológico – bastante certeiras. Ri-se, em ambos, dos absurdos da ditadura, mas jamais do que ela provocou à sociedade. São filmes que encaram o tema de frente, sem medo ou receio. Acreditam que, se o regime pode ser ridicularizado, olhá-lo e refletir sua gravidade talvez deixe de ser tarefa tão passível de patrulhamento.

*Marcelo Miranda é crítico de cinema das revistas eletrônicas Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br) e Cinequanon (www.cinequanon.art.br) e repórter de Cultura e Cinema do jornal “O Tempo”, em Belo Horizonte (MG).

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