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Brasil Indígena

Programa 139
Brasil IndígenaAmpliar Foto do Programa 139
Classificação
Livre
Temas
Questão Indígena, conflitos, documentário
Séries
· Brasil diverso


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O programa apresenta quatro visões particulares sobre o índio, dos anos 1960 até a virada do milênio. Ãgtux traz, com um olhar sensível, as questões de terra que envolvem a nação Maxacali, de Minas Gerais. Jornada Kamayurá narra com delicadeza um dia na pequena nação de mesmo nome. Bubula, o cara vermelha retrata Jesco von Puttkamer, cinegrafista das expedições dos irmãos Villas Bôas, com impressionantes registros de primeiros contatos com tribos indígenas. E Mato eles?, filme seminal de Sérgio Bianchi, revela sua ironia ácida e provocativa ao investigar as últimas etnias existentes no Paraná no final da década de 1970.

Filmes do Programa 139


Tempo total aproximado do programa: 97 minutos.

Crítica


Identidade e território garantidos nas telas

Neusa Barbosa*

Se, ao longo da história do país, tem sido cronicamente inviável encaixar o índio com justiça e cidadania plena na sociedade nacional, no cinema ele tem merecido sólidas investigações sobre sua identidade – que é, em boa medida, preservada por trabalhos cinematográficos com registros e intenções não raro opostos, ainda que complementares.
Uma das abordagens mais ácidas da candente questão indígena atravessa, desde o provocativo título, o média-metragem Mato eles? (1983), do diretor paranaense Sérgio Bianchi. Documentário engajado, com proposta de ativismo político nos últimos anos da ditadura militar (1964-1985), o filme expõe os bastidores da virtual destruição da reserva de Mangueirinha (PR).
Formalmente, o filme não é menos explosivo. O cineasta divide seu libelo em capítulos, cada um deles iniciado por questionários com perguntas de grandiloquência irônica, que emulam os formulários burocráticos das instituições governamentais. Assim fazendo, sistematiza a denúncia da dilapidação dos recursos naturais da reserva pela própria Funai (Fundação Nacional do Índio), que cedeu metade da área a uma madeireira, encurralando os kaigang, xetá e guarani que compartilhavam o território.
Incorporando sua própria autocrítica, Bianchi não poupa a si mesmo, diretor onipresente sempre disparando perguntas provocativas em cena, duvidando até mesmo da pureza do cinema como instrumento de denúncia. Todos esses elementos contribuem para que a força da obra – que preparou a trilha para o lançamento de outros filmes luminares sobre o tema, como Serras da desordem (2006), de Andrea Tonacci, e Corumbiara (2009), de Vincent Carelli – permaneça indelével décadas depois de sua realização.
Os demais títulos do programa traçam a linha demarcatória da memória da rica cultura indígena – outra pedra lapidar na defesa dessas populações, apagadas sob a força de armas que instituem sua invisibilidade. O mais antigo deles é Jornada Kamayurá (1966), de Heinz Forthmann, uma produção do Instituto Nacional de Cinema Educativo, fundado em 1936 para criar uma imagem do Brasil. Trabalho que une rigor etnográfico com delicadeza poética, o filme do documentarista e professor alemão, radicado no Brasil, sintetiza um dia na vida natural dos kamayurá do Alto Xingu – um povo ligado à água, que domina as técnicas de uma arquitetura ecológica, traduzida em enormes ocas coletivas, e amantes de iguarias como o pequi e o gafanhoto.
Bubula, o cara vermelha (1999), de Luiz Eduardo Jorge, igualmente recupera imagens do passado. Através do perfil de Jesco von Puttkamer (fotógrafo e cinegrafista de diversas missões de aproximação dos antropólogos Cláudio e Orlando Villas Bôas e Francisco Meirelles), descobre-se a fascinação pela riqueza da cultura indígena, em rituais como o Kuarup. E também o arsenal de técnicas do cinegrafista, um mestre da improvisação, tornando-se o próprio técnico de som em plena selva e tocando até uma sanfoninha para ajudar a relaxar estes primeiros contatos com tribos isoladas.
O curta-metragem mais recente, Ãgtux, de Tania Anaya, recorre à animação para dar vida à rica cosmogonia dos Maxacali, povo que habita o Vale do Mucuri (MG). Escorados numa riqueza fabular inversamente proporcional ao seu reduzido número – a comunidade é formada apenas por 1.200 pessoas –, estes indígenas preocupam-se com a disponibilidade de água para todos os homens. Cidadãos de um mundo que ultrapassa suas reduzidas fronteiras, as questões da degradação da terra e da necessidade de adaptação de seus rituais igualmente estão à flor de sua pele.

* Crítica de cinema desde 1990, é editora do site Cineweb e colaboradora da revista Bravo. Autora dos livros Gente de Cinema – Woody Allen, John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida, Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente e Fernanda Montenegro (no prelo).

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