Existem muitas formas de se viver. Levar a vida através da arte é a escolha feita pelos personagens destes seis vigorosos documentários. “Caleidoscópio das artes” apresenta as reflexões de dez importantes artistas plásticos brasileiros acerca de seus trabalhos, anseios, influências, desejos, manifestos e lutas.
Numa harmoniosa interação, os cineastas imprimem em imagens e sons suas impressões sobre as primeiras expressões plásticas, inventando novas obras com seus personagens e fazendo da arte também sua escolha de vida.
Filmes do Programa 141
Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.
Crítica
Olhares que se cruzam
Gustavo Galvão*
O cinema é uma arte aglutinadora por natureza. Reúne todas as formas de expressão e amplia o alcance sensorial de cada uma, reinventando-as de acordo com um código próprio. Por isso, chama atenção a postura respeitosa que o cinema tem ao abordar a pintura – frequentemente transposta para a linguagem fílmica de modo conservador. Os curtas-metragens reunidos em “Caleidoscópio das artes” se esforçam para fugir desse estigma.
Ver ouvir é o primeiro da lista. Enfoca três jovens artistas, três abordagens distintas de arte. Com 22 anos à época (1966), o paraibano Antonio Dias se destaca por suas frases de efeito. É ele quem identifica o motor da experiência artística: “Sempre haverá o que lutar contra”. Roberto Magalhães e Rubens Gerchman, que completam o tríptico assinado pelo cineasta Antonio Carlos da Fontoura, dão as dicas do que deve ser combatido: as normas de um mundo esquemático e opressor.
Há um diálogo com o espírito contestador do período, mas é inevitável a sensação de que os três personagens e suas obras mereciam uma investigação aprofundada. Essa impressão fica no ar também após Mondego (Christian Caselli, 2007) e Spray jet (Ana Maria Magalhães, 1985). No primeiro, apesar do desenrolar estimulante, a importância do trabalho desenvolvido pelo artista homônimo de São Luís (MA) se limita ao sintético letreiro final. Já Spray jet tem o mérito de registrar a inquietação criativa que movia a geração liderada por Leda Catunda, Ciro Cozzolino e Leonilson.
Paraíso, Juarez é curto e grosso. Thomaz Farkas abre seu microfone para que Juarez Paraíso apresente o mural que fez para um cinema de elite em Salvador, o Tupi. Uma explosão psicodélica que evocava a falta de comunicação entre os homens. Nos idos de 1968, a obra provocou a ira dos frequentadores do lugar e durou pouco. Ao fim, um recorte de jornal contextualiza o eterno embate entre arte e sociedade.
A cada obra realizada, a arte promove uma nova sensibilidade. Nesse sentido, Milton Dacosta - Íntimas construções (1998) é simbólico. Dirigido por Mario Carneiro, o guru estético do Cinema Novo, ele presta uma homenagem ao pintor que dizia “desconfiar da espontaneidade”. A direção sóbria reproduz o olhar do homem que media e refletia sobre os mínimos detalhes de um quadro. O tom respeitoso faz sentido aqui – exceto no fim (a sensualidade que notabilizou a fase mais vívida de Dacosta pediria um visual mais fluido). Ainda assim, fica a certeza de que um gênio foi resgatado.
Dois anos antes, o diretor Agnaldo Siri Azevedo provou que o cinema pode reinventar a pintura. Ao mergulhar na vida de Carybé (o argentino Hector Julio Páride Bernabó), que fez de Salvador o seu lar, O capeta Carybé extrapola o factual e inverte os papéis: no lugar de uma biografia, tem-se um virtuoso painel dos tipos que fazem o charme da capital baiana. Tomadas de mulheres carnudas e jogadores de capoeira, as telas do artista são um meio para destrinchar um estilo de vida. Narrado por Harildo Deda, o sinuoso texto de Jorge Amado diz tudo: “Em matéria de bunda de mulher, Carybé é autoridade máxima”.