Este programa, que se vale da linguagem poética para criar sua narrativa fílmica, traz seis curtas-metragens com opções estéticas e estilísticas tão distintas quanto são os universos poéticos para os quais eles se voltam. O poeta do Castelo, com Manuel Bandeira encenando a si próprio, emula a sobriedade e a simplicidade dos versos do poeta. O anárquico Assaltaram a gramática antecipa a linguagem do videoclipe ao apresentar poetas marginais brasileiros de forma ficcional e performática. Em Soneto do desmantelo blue, Cláudio Assis traduz ritmicamente a visualidade e a plasticidade da poesia de Carlos Pena Filho. A animação Patativa busca inspiração no cordel para narrar a vida do poeta cearense Patativa do Assaré. Já O dono da pena faz uma transposição literal do poema do goiano Marcos Caiado. Diferentemente, em Caramujo-flor, o prazer da palavra encontrado em Manoel de Barros ecoa em imagens tão sensuais quanto surreais criadas por Joel Pizzini.
Filmes do Programa 143
Tempo total aproximado do programa: 71 minutos.
Crítica
A possibilidade do impossível
Marcelo Miranda*
“Poeta é a pimenta do planeta (malagueta)”, canta Lulu Santos nos versos da música-tema de Assaltaram a gramática, um dos curtas-metragens deste programa. Nos seis filmes reunidos, o espectador tem a oportunidade de assistir a formas variadas de se tentar transportar para a tela a tal pimenta que é o poeta – e, mais especialmente, as palavras de um poeta. Porque, se a poesia é criação de letras, o cinema, criador de imagens, jamais conseguiria transpor literalmente o que só se pode ler e recitar. Será a partir dessa impossibilidade que cada realizador vai impor sua visão particular para a figura a qual presta homenagem.
Cada um dos curtas, afinal, é tributo a um ou vários poetas. Encontram-se nos filmes maneiras específicas de representação da poesia. O poeta do Castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, e Patativa, de Ítalo Maia, seguem uma vertente naturalista. Nem tanto pela linguagem – o primeiro encena um dia típico de Manuel Bandeira (tendo o próprio como protagonista de si mesmo), enquanto Maia se apropria da figura também real de Patativa do Assaré para transformá-la em animação. Porém, em ambos, há a tentativa de captar o que são as vidas dos dois poetas em questão, buscando em seus cotidianos e biografias elementos para a composição dos filmes. Assim, de Bandeira assistimos o acordar, o fazer café, o comprar jornal, o escrever, o passear na rua; de Patativa, reconstitui-se a infância e juventude no sertão cearense, quando mesclava o trabalho na enxada com a imaginação poética.
Por caminhos diversos vão Assaltaram a gramática, de Ana Maria Magalhães, e Soneto do desmantelo blue, de Cláudio Assis. Aqui, a poesia é escopo para se falar de elementos além dela, em especial da cidade e da forma como o espaço urbano interage com a figura do criador. No filme de Magalhães, veem-se diversas recitações de textos dos performáticos e “marginais” Paulo Leminski, Chico Alvim, Waly Salomão e Chacal, sempre diante de seres “anônimos” transitando pelas ruas do Rio de Janeiro; no caso de Assis, os versos de Carlos Pena Filho emolduram o ardor de um Recife culturalmente efervescente e sufocantemente urbanizado – e a imagem final, a única em cores, explicita a vontade do filme de vincular as palavras de Pena à arquitetura da metrópole.
Por fim, O dono da pena, de Cláudia Nunes, e Caramujo-flor, de Joel Pizzini, não poderiam ser mais distantes em suas escolhas estéticas. Se Nunes opta por uma ilustração quase literal em imagens e palavras do poema de Marcos Caiado que dá título a seu filme, Pizzini mergulha profundamente nos textos de Manoel de Barros, deixando de lado a pura utilização dos versos do poeta para tentar fazer das imagens versos em si mesmos. Ainda que opte pelo uso de rostos conhecidos (há participação de Ney Matogrosso e Aracy Balabanian, entre outros), Pizzini torna o filme um objeto quase único e desvinculado de sua fonte primária, ainda que a essência de Barros e a paixão do cineasta pelo que transpõe na tela sejam, a cada segundo de projeção, o que de mais vivo Caramujo-flor possui.
Além da boa qualidade dos curtas aqui apresentados, é importante registrar que este programa congrega os primeiros trabalhos de três nomes muito importantes à cinematografia brasileira: Joaquim Pedro de Andrade, que posteriormente assinaria O padre e a moça e Macunaíma; Joel Pizzini, de 500 Almas; e Cláudio Assis, dos controversos Amarelo manga e Baixio das bestas.
*Marcelo Miranda é crítico de cinema das revistas eletrônicas Filmes Polvo (www.filmespolvo.com.br) e Cinequanon (www.cinequanon.art.br) e repórter de Cultura e Cinema do jornal “O Tempo”, em Belo Horizonte (MG).