Resultado do Edital Curta Criança, promovido pelo Ministério da Cultura para estimular a produção de curtas-metragens infantis, os filmes deste programa confirmam a qualidade e a diversidade do cinema destinado às crianças atualmente. O homem que bota ovo e Malasartes vai à feira são histórias muito divertidas e com raízes na cultura popular oral. Os filmes O sapo e Cada um com seu cada qual apresentam situações do cotidiano escolar. Meus amigos chineses retrata um episódio da infância do diretor, durante o golpe militar. Se o poeta Mario Quintana está presente no filme Tratado de Liligrafia, é possível também encontrar poesia na vida simples de catadores de papel no curta-metragem As coisas que moram nas coisas. Na pista do apito mostra a aventura e a superação de obstáculos de uma maneira divertida e delicada.
São ótimas histórias que desvendam aspectos da vida da criança brasileira. Bom divertimento!
Este programa é fruto da parceria firmada entre a Programadora Brasil e a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.
Filmes do Programa 144
Tempo total aproximado do programa: 113 minutos.
Crítica
Para formar novos públicos
Marcus Mello*
O presente programa reúne curtas-metragens viabilizados pelo projeto Curta Criança, do Ministério da Cultura. Bela iniciativa para estimular a criação de conteúdos infantis, este programa de fomento revela seus acertos em cada um dos oito filmes aqui disponibilizados. Como é hábito em produções dessa natureza, todos os curtas apresentam uma estrutura narrativa simples, a fim de alcançar uma comunicação mais imediata com seu público-alvo, formado por crianças a partir de 7 anos de idade.
O homem que bota ovo, de Rafael Conde, recria o clima das antigas comédias de Mazzaropi com um humor tipicamente mineiro. A eficiente direção de arte e a trilha sonora de Tavinho Moura ajudam a transportar o espectador para as roças de Minas Gerais, com seus causos engraçados e cheios de imaginação.
Cada um com seu cada qual relata o que acontece quando uma garota de 8 anos recebe um inesperado presente de um misterioso catador de lixo (interpretado pelo músico Lenine). A diretora Flavia Castro faz uma defesa da diferença e da generosidade, nesta deliciosa história narrada por uma menina com uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça.
Na pista do apito acompanha as aventuras de um menino atrás de um amolador de facas. No trajeto, ele faz amizade com uma garota que perdeu seu cão e com um simpático engraxate. O diretor Daniel Chaia mostra que a ameaça das ruas e o medo do desconhecido podem ser enfrentados com o companheirismo e a solidariedade.
O sapo, de Adolfo Sarkis, deve boa parte de seu encanto a seu jovem protagonista, o ótimo ator mirim Felipe Latgé, que dá credibilidade ao romântico Lucas, apaixonado por uma colega mais velha. Para se aproximar de sua amada, ele aceita participar de uma peça escolar, na qual terá de interpretar o mais ingrato dos personagens. Aqui novamente o que está em jogo é a afirmação da diferença, mas sem subestimar a inteligência dos pequenos espectadores.
Meus amigos chineses, de Sergio Sbragia, tem sua trama ambientada às vésperas do golpe militar de 1964. O filme recupera um episódio da infância do diretor, descrevendo a amizade de um garoto que coleciona selos com seus novos vizinhos. O uso de imagens de arquivo acentua a dramaticidade do relato, baseado em fatos reais, envolvendo a prisão de dois jornalistas chineses acusados de espionagem e subversão.
Tratado de Liligrafia, de Frederico Pinto, busca sua inspiração nos versos do poeta gaúcho Mario Quintana. Ao longo de um final de semana, a menina Lili recebe do avô lições de poesia e de vida, aprendendo a encarar inclusive a inevitabilidade da morte. Uma eficiente tradução dos conhecidos versos de Quintana, que aproxima velhos e crianças por compartilharem “a volúpia de viver dia a dia, hora a hora”, pois “suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco minutos”.
As coisas que moram nas coisas, de Bel Bechara e Sandro Serpa, coloca em cena uma família de catadores de lixo, formada por um casal e seus três filhos. Um cotidiano duro que será transfigurado pela imaginação fantasiosa das crianças, capaz de contagiar até mesmo os pais amargurados. Destaque para a trilha sonora, assinada por Livio Tragtenberg.
Malasartes vai à feira, de Eduardo Goldenstein, conta uma das aventuras do malandro Pedro Malasartes, popular personagem do folclore português famoso por sua lábia. Desta vez, Malasartes passa a perna numa dupla de feirantes, a quem pede ajuda para preparar uma sopa de pedra. A comédia corre solta, amparada pelo talento do ator Augusto Madeira, pela fotografia de Mauro Pinheiro Jr. e pela câmera de Lula Carvalho.
*Marcus Mello: Crítico de cinema gaúcho, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.