Neste programa de curtas-metragens, o binômio futebol e cinema é considerado estratégico para a construção de um sentimento de nacionalidade brasileira. Os seis filmes não só focam o futebol como demonstram a enorme contribuição oferecida pelo esporte nacional para a história social, política e econômica do país. Embora diferenciados em seus formatos e linguagens – uns são genuinamente documentários, outros ficcionais – todos tratam de uma questão crucial para o pensamento filosófico popular brasileiro: o futebol é o ópio do povo? Além disso, os filmes apontam para questões exóticas, idiossincráticas e epifenomenais produzidas pelo futebol, pela ótica de quem constrói o cinema brasileiro e tem amor pela pelota.
Filmes do Programa 147
Tempo total aproximado do programa: 108 minutos.
Crítica
O futebol como estado de espírito
Kleber Mendonça Filho*
Talvez pelo futebol ser amplamente reconhecido como “paixão nacional”, o cinema brasileiro é alvo de uma cobrança. Muitos afirmam que ele é incapaz de filmar essa paixão. A insatisfação talvez venha do número de filmes já feitos, considerado insuficiente para expressar o tamanho desse amor. Muitas vezes comenta-se que a própria ação da bola no gramado é pouco registrada pelas nossas câmeras. O programa vem para minimizar tal insatisfação a partir de olhares que, não tão preocupados em filmar a bola, terminam por apresentar retrato preciso de um estado de espírito que traduz o Brasil como país e cultura.
A seleção abre com o filme cearense Loucos de futebol (2007), de Halder Gomes, que capta esse ânimo com grande energia. Gomes e equipe parecem ter frequentado estádios entrando no ritmo inebriante que só uma multidão é capaz de ditar antes e durante uma partida apaixonada. É o registro de uma insanidade vespertina, captada não só nas cores das camisas, nos fogos de artifício e nas toneladas de bandeiras e serpentinas mas, especialmente, no linguajar espetacularmente imundo de estádio que parece almejar nas figuras dos goleiros, dos árbitros e da polícia.
O linguajar chulo também chama a atenção em O mundo segundo Silvio Luiz (2000), de André Francioli, neste exercício sobre uma personalidade identificada pelo filme como uma voz que é parte importante da nossa cultura esportiva. Amado e odiado em medidas semelhantes, Silvio Luiz, voz rouca de forte sotaque regional, é a figura midiática resmungona e espirituosa que transforma mau humor num humor peculiar, transmitindo, narrando e discutindo o futebol brasileiro (e a vida) sob um ponto de vista claramente paulistano. Aos poucos, as imagens e o som ganham bela parceria, e desconfiamos que o viver pode ter a cadência e a ironia de uma partida narrada de futebol.
Gaviões (1982), de André Klotzel, mantém o corte paulistano no que seria claramente o exercício mais abstrato do conjunto. Por vezes um ‘home movie’ filmado no seio da torcida corinthiana, por vezes um ensaio visual sobre os valores estéticos do branco e preto (cores do time), Klotzel nos dá uma crônica tribal que, nos seus melhores momentos, supera o aspecto umbigo da sua aparente paixão.
A ponte entre O mundo segundo Silvio Luiz e o filme baiano Rádio Gogó (1998), de José Araripe, é curiosa do ponto de vista da oralidade. A bola rola não só no campo mas na boca dos que observam, e Rádio Gogó resulta numa crônica espirituosa sobre a capacidade de falar o futebol. O personagem principal é o proprietário de uma Kombi colorida que, bebendo na fonte da comunicação comunitária, traz uma alegria descontrolada aos retratos falados da bola ao redor de Salvador, seu sonho maior poder narrar uma copa de mundo. Na verdade, a grandeza do filme está em mostrar que o futebol é o sistema e também a sua maior contestação.
Finalizando o programa, uma reflexão sobre o impacto emotivo do esporte em todo um povo, tomando como ponto de partida o luto nacional da copa de 1950, onde um Maracanã lotado viu a seleção perder a final para o Uruguai por 2 a 1. Em Barbosa (1988), os gaúchos Ana Luísa Azevedo e Jorge Furtado usam o maravilhoso subterfúgio da viagem no tempo para que o protagonista vivido pelo ator Antônio Fagundes, ainda triste quase 40 anos depois do fato, tenha a chance de mudar o rumo da história. A narrativa enxuta do filme, entrecortada com depoimentos valiosos do goleiro Moacir Barbosa, parece estar a serviço da alma ferida do Brasil, cultura peculiar capaz de ver uma derrota no esporte com o mesmo peso de uma catástrofe natural ou mesmo uma guerra.
* Cineasta, Direção do longa-metragem Crítico e de premiados curtas-metragens, como Eletrodoméstica, Vinil verde, entre outros. Também é crítico de cinema do Jornal do Commercio (PE). Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).