Este programa reúne filmes com temas referentes à terceira idade, que vão do sentimento de abandono à descoberta do tempo livre, da diversão e do amor, passando pelas reminiscências das histórias trilhadas. Aborda também a diminuição da força física que vem com a idade, as escolhas da vida, os fantasmas do passado e a busca por novos sonhos. A relação da família com seus idosos, muitas vezes vistos como estorvo, com o choque entre os diferentes tempos humanos, seu silêncio, sua alegria e sua sabedoria, permeiam o programa. Por fim, registra com um sorriso torto a escolha dos símbolos de morte na vida pelo casal cheio de cumplicidade, que nos leva a refletir sobre a frase da personagem de Laura Cardoso em Morte., que conclui ao final: “a morte não é o problema, o problema é o que fazer até ela chegar”.
Filmes do Programa 149
Tempo total aproximado do programa: 100 minutos.
Crítica
A maturidade sob diferentes olhares e humores
Cid Nader*
Abordar a velhice é prática comum no cinema. Este programa faz perceber que há razões e maneiras diferentes de desenvolver o tema quando se trata de curta-metragem. O mais curioso é a diversidade de “humores” utilizados – o que leva a supor que há realmente uma reverência respeitosa ao se falar de pessoas idosas e da proximidade do fim. Alguns diretores, porém, com muita habilidade, conseguiram ultrapassar esse “limite” da idealização do assunto – que é quase intocável –, realizando seus filmes com humor e irreverência.
Entre as obras reverentes, situam-se os trabalhos Vestígio (Karla Holanda) e A partida (Sandra Ribeiro). Holanda conta uma história de amor entre pessoas de idade avançada numa região pobre, e se sai bem quando propõe um choque entre as necessidades de afeto de cada uma. Recorrendo ao flashback, Ribeiro narra a história de um nostálgico e solitário idoso - vivido por Paulo Autran - que, do alto de seu apartamento, faz um balanço de suas escolhas de juventude, em especial, do momento em que seu desejo de liberdade e aventuras o levou a abandonar a casa da avó, por quem sentia enorme apreço.
É interessante perceber que não é preciso transformar o tema em tabu, nem torná-lo sacralizado. O experiente cineasta Guilherme de Almeida Prado recorreu à sua maneira de confeccionar cinema, cercou-se de um elenco de bons atores e realizou Glaura, cujos pontos altos são, sem dúvida, o humor e as falas de José Lewgoy na cadeira de rodas.
Bom dia, senhoras!, de Erika Bauer, é uma comédia de humor ácido, quase negro, rodado em Belo Horizonte, que consegue antepor as divergências comuns entre irmãos (no caso, três irmãs), deixando claro que a idade e o tempo de convivência não são elementos suficientes para acalmar esse eterno e ancestral conflito fraternal (explicitando, também, que o conflito não impede a “necessidade” da proximidade: mesmo que “finais de história” possam ser de matiz vingativa).
Totalmente fiel ao estilo do diretor José Roberto Torero, de criar textos jocosos e cheios de humor, Morte., que poderia ser assunto pra lá de tabu quando associado à velhice, trata do tema com atuações de dois grandes atores - Paulo José e Laura Cardoso -, que são também os responsáveis por criar a empatia necessária com o público ao transformarem o humor do cineasta em arte bem executada.
Fechando o quesito humor e irreverência há o que talvez seja o mais belo título desse pacote, No passo da véia, de Jane Malaquias. O curta vai quase ao fato documental (ao revelar a situação real de uma vila de pescadores no Ceará) para se completar com um misto de narrativa ficcional, folclórica, singela e bem-humorada. Conta do amor de uma senhora por seu neto (um pescador) através de atos que só avós podem executar pelo bem dos filhos de seus filhos. E não há ato complexo demais ou heroico, mas uma dedicação rara de se ver, quando ela opta por gastar um dia de sua vida para o que imagina ser um bem momentâneo maior. Os textos recitados, a explosão do sol, o emolduramento do céu azul e seu caminhar na rua resultaram num filme quase naïf.
O mais interessante desse apanhado de filmes é constatar que diversidade para tratar do assunto é possível e existe. E que todos eles utilizaram bem as ferramentas e possibilidades de confecção no formato.