Meteorango Kid - Herói Intergaláctico, de André Luiz de Oliveira, e Superoutro, de Edgar Navarro, são representantes legítimos do underground baiano. O filme de André Luiz surge em meio a um processo delicado da história mundial, um momento em que diversas ditaduras militares se instalam na América Latina. Já o mítico média-metragem Superoutro narra a viagem de um louco pela cidade de Salvador. O filme possui uma trilha sonora magnífica, uma mistura de Villa-Lobos, Arrigo Barnabé, Carlos Gomes, Caetano Veloso, Fausto Fawcett, trechos do Hino da Independência do Brasil e até da Internacional Socialista. O cinema baiano voou pelas mãos de André Luiz Oliveira e Edgar Navarro.
Filmes do Programa 15
Tempo total aproximado do programa: 128 minutos.
Crítica
O cinema contracultural da Bahia
Newton Cannito
Meteorango Kid e Superoutro são dois bons exemplos do cinema de invenção realizado na Bahia. Os vinte anos de diferença entre a realização dos dois filmes demonstra que eles se inserem numa tradição contracultural que se mantém viva em Salvador.
Ambos os filmes retratam personagens marginais que vivem uma série de peripécias sem uma linha clara de dramaticidade.
Lula, protagonista de Meteorango Kid, é um jovem de família de classe média alta que vaga sem causa alguma pelas ruas de Salvador. Nessa trajetória ele cruzará com várias figuras contestatórias que desafiam as normas do sistema. Fantasia e realidade se misturam sem hierarquia e sem que o público possa definir claramente onde começa uma e termina a outra.
O filme oferece um retrato da juventude brasileira que procura descobrir como agir (ou não agir) em plena linha dura do regime militar. A ausência de sentido é o próprio tema do filme. André Luis Oliveira realiza um filme de libertação total e contestação a tudo, até mesmo à possibilidade de contestação.
Em termos de cinema brasileiro Meteorango Kid é considerado parte do ciclo do cinema marginal. Em termos internacionais a estética de Meteorango dialoga com a obra de Jean Luc Godard. A montagem é descontínua; a edição de som e a trilha não são meros contrapontos ou reforços ao drama.
Também em diálogo com o tropicalismo e com a arte pop, o filme não hesita em antropofagizar o "cinemão" americano e é recheado de citações a heróis como Batman, Robin e Tarzan.
A excelente seqüência de abertura mostra Antônio Luiz Martins trajado de Cristo e culmina com a agonia do Messias, retratada numa colagem de closes feitos sob diferentes ângulos e sem continuidade.
Superoutro é um média-metragem de ficção sobre um louco de rua, espécie de Dom Quixote do Terceiro Mundo, que tenta se libertar da miséria através da sua imaginação alucinada. O filme foi dirigido por Edgar Navarro, cineasta que já tinha grande destaque no movimento de Super 8 dos anos 70, com filmes como O Rei do Cagaço.
O filme se constrói pelo choque de referências culturais díspares, inclusive da indústria cultural. Numa seqüência antológica o protagonista assiste ao programa de Silvio Santos na vitrine de uma loja. Enquanto roda a roleta ele começa a se masturbar e na trilha entra uma música clássica. Ele atinge o clímax quando o jogador consegue dobrar o valor. A mistura entre indústria cultural, grotesco sexual e música clássica constrói o estranhamento que o filme procura.
Em outro momento é parodiada uma seqüência clássica de Amarcord, de Fellini. Sobre a trilha de Nino Rota (a mesma de Amarcord), o louco de Navarro sobe numa árvore "tal como Amarcord" e grita que "quer uma mulher".
A indústria cultural americana também será deglutida no filme de Navarro. A contradição está dada no fato do cinema de nome "Glauber Rocha" exibir o block buster Super Homem. A transformação do louco em Superoutro ocorre logo a seguir e sobre o som da trilha original de Super Homem.
Tal como em Meteorango Kid, Superoutro não hesita em se apropriar das referências da indústria cultural para satirizá-las e construir uma obra critica e inovadora.