Não é novidade afirmar que a música popular é a expressão máxima do vertiginoso mix de culturas que é o Brasil. No entanto, nem sempre temos um exemplo claro do sentido dessa afirmação. Esta compilação de seis curtas-metragens mostra um pouco da inventividade de que a música brasileira é capaz. Tim Maia, Walter Franco, Os Mutantes, Jards Macalé, Moreira da Silva, Arrigo Barnabé e um “quase” anônimo rastafári que dá duro para divulgar seu novo trabalho: todos têm em comum o inconformismo diante de fórmulas prontas. Cada um foi capaz de mostrar que a música popular pode ser repensada das formas mais inusitadas. Alguns encontraram a fama, outros sofreram a indiferença do grande público justamente por sua ousadia, mas todos mostram o enorme potencial de construção e reconstrução de nossa música. Nestes documentários e ficções, temos imagens raras, reflexões e depoimentos contundentes. Indispensável para todos que pretendem expandir seu campo de visão sobre um de nossos maiores tesouros culturais.
Filmes do Programa 150
Tempo total aproximado do programa: 94 minutos.
Crítica
Reinventando a música na tela
Ricardo Calil*
Em toda a sua história falada, o cinema brasileiro buscou energia e inspiração na música popular do país, desde as comédias musicais dos anos 1930 até sucessos recentes como 2 Filhos de Francisco. Os curtas-metragens reunidos neste programa se inserem nesse contexto, mas têm um desafio extra. Por retratarem um grupo de artistas que promoveu revoluções musicais e/ou comportamentais no país (Mutantes, Tim Maia, Arrigo Barnabé, Walter Franco, Jards Macalé), os filmes não poderiam ser convencionais e precisavam buscar o risco, sob o risco de o resultado ficar aquém da missão.
Os diretores dos curtas adotaram estratégias cinematográficas para que seus trabalhos evocassem o espírito das músicas que os inspiraram. Em Mutantes (1970), por exemplo, Antonio Carlos da Fontoura retrata um dia de Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sergio Dias nas ruas de São Paulo com um mosaico de cenas documentais improvisadas e trechos de canções do trio paulistano, conhecido justamente por suas colagens e justaposições sonoras.
Tira os óculos e recolhe o homem (2008), em que André Sampaio reinventa o episódio verídico da prisão de Jards Macalé após um show com Moreira da Silva em 1977, mostra clara influência dos quadrinhos, algo que o compositor carioca exercitou em seu trabalho desde o clássico Gotham City. Já A estória de Clara Crocodilo (1980), de Cristina Santeiro, parece um filho inspirado de O Bandido da Luz Vermelha (1969), com sua trama radiofônica-policialesca terceiro-mundista baseada na cinematográfica música de Arrigo Barnabé.
Walter Franco, muito tudo talvez seja o curta que se aproxime mais de um documentário musical tradicional, baseado em entrevistas e registros de canções, mas a câmera inquieta dos diretores Bel Bechara e Sandro Serpa tenta reproduzir as inflexões e mudanças de ritmo que caracterizam a obra do compositor paulistano.
Por vezes, a inventividade dos curtas aqui reunidos reside em um detalhe fundamental. Pretinho Babylon (2007), de Cavi Borges e Emílio Domingos, mostra a batalha de um rastafári para divulgar seu disco de dub circulando pelo Rio de Janeiro de bicicleta. No entanto, o interesse do filme vem menos da narrativa do que da decisão de usar o som não direto, com dublagem dos diálogos – o que confere um tom fabular, não realista, ao filme e explicita a homenagem a Rockers (1978), o filme jamaicano que lhe serviu de base.
Se Pretinho Babylon é um raro bike movie, Tim Maia (1986), de Flávio Tambellini, é um saboroso road movie documental, que tem como eixo uma conversa com Tim Maia em um carro conversível pela orla carioca – o que permite não só uma interação do personagem com o cenário, como também confere ao filme a informalidade e a liberdade que sempre foram marcas do cantor.
Ao fim, os curtas deste DVD cumprem a difícil tarefa de representar à altura alguns dos mais criativos músicos brasileiros. Para falar de música de invenção, só faria sentido um cinema de invenção – expressão cunhada pelo crítico Jairo Ferreira para designar os filmes do cinema marginal em que a falta de recursos era compensada pela riqueza de ideias. Todos os filmes aqui reunidos fazem jus ao título.
* Crítico de cinema, redator-chefe da revista Trip, colaborador do Guia da Folha, do jornal Folha de S.Paulo, e titular do blog Olha só, no portal IG.