Os três filmes que compõem este programa foram realizados por diferentes diretores com uma só motivação: narrar um importante momento da história recente do país, por meio da linguagem do cinema documentário, em obras sem personagens centrais, cujo protagonismo é exercido pela coletividade. Arrocho salarial, opressão das multinacionais, repressão do Estado de exceção e união da classe trabalhadora são alguns dos temas urgentes da época. A paralisação dos trabalhos dos metalúrgicos do ABC Paulista, região de forte concentração industrial do Sudeste brasileiro, aprofundaria as graves contradições da agonizante ditadura militar e revelaria, ao mesmo tempo, o nascimento de uma figura pública que marcaria os 30 anos seguintes do cenário político do Brasil: o líder sindical Luiz Inácio “Lula” da Silva.
Filmes do Programa 151
Tempo total aproximado do programa: 90 minutos.
Crítica
O cinema engajado da redemocratização
Ricardo Calil*
Nos letreiros que abrem o curta Greve de março, de Renato Tapajós, a equipe explica que o filme foi enviado ao laboratório com o título falso de Um dia nublado, com produção atribuída à ABCD Sociedade Cultural, que servia de fachada para o fundo de greve dos metalúrgicos da região paulista. Mais do que uma curiosidade de produção, essa é uma informação-chave para entender não apenas Greve de março, como também os outros títulos que compõem este programa: Greve, de João Batista de Andrade, e ABC Brasil, de Sérgio Péo, José Carlos Asbeg e Luiz Arnaldo Campos.
Os diretores dos três filmes são captadores passivos das mesmas imagens, meros observadores de um momento histórico essencial: as greves que paralisaram a indústria metalúrgica do ABC em 1979. Eles são também participantes engajados na mesma causa, com ideais e riscos próximos aos dos personagens retratados.
Isso fica claro também pelo título original de Greve de março (substituído devido a seu tamanho): “Que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores”. Frase literal de Luiz Inácio “Lula” da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e figura central dos três curtas.
Fazer a greve e filmar a greve eram, então, quase extensões. De um lado, um movimento sindical lutando contra o bloco de poder formado por governo militar e indústrias multinacionais. Do outro, um grupo de cineastas tentando romper a cobertura limitada das emissoras de TV.
Os três títulos têm narrações em off que se aproximam das palavras de ordem dos grevistas (“o trabalhador brasileiro, o melhor do mundo, o mais barato do mundo”, em Greve!), dão prioridade absoluta aos sindicalistas nas entrevistas e sublinham a dialética da luta de classes na seleção das imagens (Lula nos braços do povo, militares jogando bombas).
Ou seja, os filmes deste programa devem ser entendidos como produtos de um tempo específico do Brasil e do cinema, um momento em que talvez fosse mais fácil identificar e abraçar a causa mais justa (é impossível assistir aos filmes sem lembrar a todo momento que o protagonista dos três tornou-se presidente do país, numa época de divisões bem menos claras entre o lado certo e o errado de um embate).
Mas, cuidado, não se pode dizer que diretores e sindicalistas são um só, como observa o crítico Jean-Claude Bernardet: “A função do narrador dentro da estrutura de Greve!, tal como a analisamos em Cineastas e imagens do povo, encontra embasamento no conhecido modelo exposto por Lenin em Que fazer? [...]. O proletariado não consegue escapar ao espontaneísmo, aos movimento reivindicatórios e à ideologia burguesa se não for como que fecundado pela consciência teórica do intelectual. Esse me parece ser um dos modelos sobre os quais se apoia, de modo geral, o documentário sociológico que se desenvolve no Brasil a partir da década de 1960 e, de modo mais particular, um filme como Greve!”.
Bernardet se refere a trechos da narração em off de Greve! como “o movimento se esfacela em mil palavras de ordem e quase chega ao desespero” ou “na saída, levados por palavras de ordem desencontradas, trabalhadores saem em passeata”. Nesses momentos, percebe-se que, apesar das causas em comum, a ligação que se estabelece entre cineastas e sindicalistas ainda é uma relação entre Eu e o Outro – e mais nuançada do que o engajamento automático dos diretores sugere à primeira vista.
* Crítico de cinema, redator-chefe da revista Trip, colaborador do Guia da Folha, do jornal Folha de S.Paulo, e titular do blog Olha só, no portal IG.