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Solidões urbanas

Programa 154
Solidões urbanasAmpliar Foto do Programa 154
Classificação
16 anos
Temas
Solidão, métropoles
Séries
· Panoramas urbanos


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A cidade separa mais do que une. Neste programa de seis curtas-metragens somos apresentados a personagens, reais ou fictícios, que nos mostram um pouco da verdade desta afirmação. São personagens solitárias, conformadas ou não com sua condição, conscientes ou não do abismo que as separa do próximo. Temos o suicida, o amigo distante, a dona de casa que encontra na Internet seu maior prazer... Estes, entre outros, se inserem em um espaço urbano mediado pelas modernas tecnologias de entretenimento e segurança. Contos sobre técnicas de vigilância, apaziguamento e separação se alternam com outros que nos mostram apenas a terrível dificuldade do encontro humano por entre as estruturas de concreto. Às vezes a tecnologia registra nossa solidão, ás vezes a estimula e às vezes ela apenas se ausenta, deixando o silêncio como um simples e primitivo silêncio.

Filmes do Programa 154


Tempo total aproximado do programa: 92 minutos.

Crítica


Na selva das cidades

Marcus Mello*

Os títulos reunidos neste DVD, apesar de terem sido produzidos em épocas e contextos distintos, aproximam-se ao apresentarem visões pouco alentadoras da vida na metrópole. O trânsito por gêneros variados (ficção, documentário, animação) ou a distância geográfica e geracional não impedem que os diretores destes seis curtas usem a linguagem cinematográfica para problematizar a experiência urbana na contemporaneidade.
A voz da felicidade é o título mais antigo do programa. Realizado em 1987, a partir de um argumento do escritor Luis Fernando Verissimo, o curta mostra os últimos momentos de vida de uma suicida (Isabel Ribeiro), transmitidos acidentalmente por um programa de auditório liderado pelo alucinado apresentador Amaro Amaral (Pedro Santos). Além de antecipar a maquinaria perversa dos reality shows que invadiriam as grades da televisão brasileira alguns anos depois, o diretor Nelson Nadotti oferece ao público a derradeira performance de Isabel Ribeiro. Já debilitada pelo câncer, a excepcional protagonista de São Bernardo e A queda despede-se do cinema com uma atuação comovente, que lhe valeria o prêmio de melhor atriz de curta-metragem no Festival de Gramado em 1988.
Em Seu pai já disse que isso não é brinquedo, o diretor Kiko Mollica propõe uma perspicaz releitura de O Bandido da Luz Vermelha, levando o espectador a acompanhar, através de câmeras de vigilância espalhadas por diferentes espaços (lojas, elevadores, portarias de edifícios), os delitos do delinquente Vamberto ao longo de um dia. Não por acaso a fotografia do filme está a cargo de Carlos Ebert, o mesmo do clássico de Rogério Sganzerla.
Dois amigos tentam sair para jantar numa noite de sábado e acabam enfrentando inúmeros percalços. Este é o ponto de partida de Ângelo anda sumido, comédia sombria realizada por Jorge Furtado em 1997, que metaforiza o acelerado processo de degradação dos espaços públicos nas grandes cidades brasileiras. Um Depois de horas porto-alegrense que, passados dez anos de seu lançamento, vem se revelando cada vez mais atual.
Invisíveis prazeres cotidianos, único documentário a integrar o programa, elege como objeto um grupo de jovens blogueiros que vivem em Belém do Pará. A diretora Jorane Castro usa os textos dos blogs como fio condutor do filme, identificando em seus escritos um sentimento comum de desconforto em relação ao local onde moram. Curiosamente, as facilidades da Internet contribuem para acentuar o isolamento dos personagens, afastando-os do convívio social, o que é sublinhado pela aura nostálgica das imagens em Super-8 da cidade antiga, a simbolizar um tempo em que a vida parecia ser menos exigente.
Já em Sistema interno, de Carolina Durão, as câmeras de vigilância são acionadas novamente, agora para flagrar o cotidiano sem cor de uma mulher em seu trajeto entre a casa e o trabalho. À noite, o zapping diante da televisão irá confrontá-la com sua condição solitária, neste curta que se destaca pela edição eficiente e por seu final muito bem resolvido.
Finalmente, com Animadores, Allan Sieber recorre ao preto-e-branco a fim de exercitar o humor corrosivo que costuma praticar em suas tiras de jornal. Aqui, no entanto, as tintas são ainda mais pesadas. Com traço expressivo e louvável senso de economia, Sieber consegue transformar o dia de trabalho de um animador de festas infantis em pesadelo kafkiano, sem direito à redenção. A atmosfera opressiva é intensificada pela ótima trilha sonora, assinada por Edu K.

*Marcus Mello: Crítico de cinema gaúcho, é editor da revista Teorema (RS) e colaborador das revistas Aplauso (RS) e Cinética (RJ). Programador da Sala P. F. Gastal, cinema mantido pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.

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