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O cangaceiro e Lampião (o rei do cangaço)

Programa 158
O cangaceiro e Lampião (o rei do cangaço)Ampliar Foto do Programa 158
Classificação
14 anos
Temas
cangaço; nordeste
Séries
· Brasil diverso


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Aqui nasceu todo um gênero do cinema bra -
sileiro, o filme de cangaço ou nordestern. No
curta-metragem Lampião (o rei do cangaço)
estão reunidas as imagens históricas que
Benjamin Abrahão filmou com Lampião e seu
bando na caatinga sergipana, em 1936. Surgia
um padrão de representação que frutificaria na
ficção após o êxito de O cangaceiro, de Lima
Barreto, primeiro filme brasileiro a receber um
grande prêmio internacional (melhor filme de
aventura e menção honrosa para trilha sonora
no Festival de Cannes). O próprio Lima Barreto,
figura mítica do nosso cinema, aparece como o
comandante da volante que persegue os cangaceiros
numa história de violência, amor e
redenção impossível. Misto de ação, romance e
musical, O cangaceiro é o melhor exemplo de
como os estúdios Vera Cruz tentaram conciliar
brasilidade e formatação internacional. Um
clássico aparentemente à prova do tempo.

Filmes do Programa 158


Tempo total aproximado do programa: 102 minutos.

Crítica


CANGACEIRO – SER OU NÃO SER
Carlos Alberto Mattos*

O clássico de Lima Barreto é a apoteose de uma cinematografia brasileira
que procurava se pautar pelo cinema internacional de sua época.
O projeto da Companhia Vera Cruz tratava de promover a industrialização
do setor mediante um diálogo assumido com as grandes linhas do
cinema de estúdio europeu e norte-americano. Daí a frequência com
que vemos a brasilidade de O cangaceiro cruzar com práticas e técnicas
hollywoodianas.
O modelo do western parcialmente aclimatado ao Nordeste brasileiro
(rodado no interior de São Paulo) tem elementos bastante característicos,
como a cidadezinha aterrorizada por bandidos, o sequestro da mocinha,
o par romântico e as relações de ciúme, a fuga, a perseguição etc.
O título do filme expressa já o interessante conflito central, pois se aplica
tanto ao Capitão Galdino – o impiedoso e eventualmente justiceiro
“governador da caatinga” – quanto ao seu lugar-tenente Teodoro, que
se rebela por amor e por lealdade a seus bons princípios.
A ascensão de Teodoro a personagem central, ao longo do filme, ilustra à
perfeição o dilema apontado já em 1966 por Lucila Bernardet e Francisco
Ramalho Jr. Para eles, os filmes de cangaço lidavam geralmente com um
herói em conflito que resolvia deixar o cangaço e fazer as pazes com as
instituições. A história de Teodoro é a de como não ser cangaceiro.
Outro gênero que perpassa O cangaceiro é o do filme musical. Das
molduras inicial e final sonorizadas pela canção Muié rendera à longa
sequência da festa do bando, passando pela suntuosa trilha orquestral
de Gabriel Migliori, quase tudo no filme respira música. Na festa
noturna, especialmente, a decupagem e a montagem são regidas pela
sucessão de canções, corais, danças coreografadas, em completo
descompromisso com as condições do ambiente. Ou seja, com a liberdade
dos musicais.
O sucesso obtido no Festival de Cannes em 1953, com o prêmio de melhor
filme de aventuras e menção especial para a música, certamente levou em
conta esse alinhamento de uma produção do terceiro mundo à estética do -
minante no primeiro. Há mesmo a procura de uma imagem “artística” nos
enquadramentos de grande plasticidade, na frequência dos contra-plongés
(câmeras voltadas para o alto) e no destaque para um céu exuberante onde
brilhava a influência da fotografia do mexicano Gabriel Figueroa.
O cangaceiro foi a plataforma de lançamento dos filmes de cangaço e
dos nordesterns, que proliferariam nas duas décadas seguintes. Ao mesmo
tempo, representou o ápice de um modelo que seria contestado nos
anos 1960 pelos teóricos do Cinema Novo. Glauber Rocha, em Deus e o
diabo na terra do sol, iria propor um filme de cangaço que trocasse o
exotismo e a tipificação hollywoodiana por um discurso crítico sobre a
realidade e o misticismo brasileiros.
O modelo do personagem Galdino foi, naturalmente, Virgulino Lampião,
astro real do curta-metragem que complementa o programa. Lampião
(o rei do cangaço) é uma reapropriação das imagens filmadas pelo
mascate Benjamin Abrahão em 1936 e que se tornariam um tesouro do
documentarismo brasileiro. Vistas aos pedaços em muitos filmes desde
então, entre eles Baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira
(Programa 4 da Programadora Brasil), essas cenas clássicas aparecem
aqui em todo o seu esplendor, restauradas pela Cinemateca Brasileira.
A narração pomposa foi adicionada nos anos 1950 com o objetivo de
interpretar as imagens. Nota-se que a admiração pela liderança e o magnetismo
de Lampião convive com a mensagem moral contra o cangaço.
Uma ambivalência que, afinal, nunca se extinguiu.

* Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre os cineastas Walter Lima
Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky, Maurice Capovilla e
Vladimir Carvalho.

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