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Nunca fomos tão felizes e Projeto 68

Programa 179
Nunca fomos tão felizes e Projeto 68Ampliar Foto do Programa 179
Classificação
12 anos
Temas
ditadura, política
Séries
· Visões políticas


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Nunca fomos tão felizes, de Murilo Salles, e
Projeto 68, de Julia Mariano, são visões distintas
sobre um momento dramático da história
brasileira, entre o final dos anos 1960 e início
da década seguinte, com o recrudescimento
da repressão política da ditadura militar (1964-
1985). O longa-metragem de Salles, de 1984,
premiado como melhor filme no Festival de Bra -
sília, além ter levado três prêmios em Gra mado
e um especial no Festival de Locarno, parte de
uma rarefeita relação entre pai e filho para aludir
ao mal-estar daquele período, num belo
exercício de cinema. Projeto 68, escolhido o
melhor curta-metragem documentário na
Jornada Internacional de Cinema da Bahia,
combate o esquecimento por meio de uma rica
montagem de imagens atuais e passadas
que recupera as reações à ditadura, em manifestações
que constituíram um dos mais fortes
movimentos políticos e libertários do Brasil.

Filmes do Programa 179


Tempo total aproximado do programa: 103 minutos.

Crítica


IMAGENS DO ABANDONO
Paulo Santos Lima*

Murilo Salles dirigiu Nunca fomos tão felizes, seu primeiro longametragem,
em 1984, ano vesperal ao fim do regime militar, quando a
pior face da repressão política do Governo Médici (1969-75) já era apenas
uma marola na memória do país, que naquele instante se inebriava
com a redemocratização. Momento de feliz mudança e arejamento,
mas também de certa perplexidade e questionamento: para onde iriam
o novo Brasil e a história daquele Brasil anterior, o dos anos pós-golpe
militar de 1964, com suas tantas violências e vítimas? É nesse espírito,
de alguém de 34 anos que conviveu com o terror e chega aos anos 1980
um tanto observador, que se configura a forma desse filme de ausências
e rarefações, em que as coisas são mais aludidas que esclarecidas.
Não à toa, Salles recorre aos fades e pequenos saltos no tempo diegético
da história para falar sobre um pai ausente (Cláudio Marzo) que reencontra
o filho (Roberto Bataglin) após oito anos e, tirando-lhe do colégio
interno, tenta reavivar o contato, mesmo que isso se dê de uma forma
conturbada. O filme dá parcas pistas, via imagem e diálogos ambíguos
ou cifrados, de que Beto, o pai, é um guerrilheiro na clandestinidade, o
que explica por que tem de deixar seu filho, Gabriel, sozinho num enorme
apartamento em Copacabana, enquanto as coisas se acalmam. Beto
nada elucida ao filho a não ser o desejo de recuperar seu papel paterno.
Temos, assim, um típico drama pai e filho, tumultuado por algum assunto
que nunca surge concreto na tela, mas sim numa certa “instância”, alguma
fala, página de jornal, um revólver, a ansiedade alerta de Beto.
Resumindo, é uma reunião de peças soltas de um quebra-cabeça cuja imagem
é pura ambiguidade, ou mera referencialidade a algo que parece exterior
ao filme: a repressão política no início da década de 1970.
Na prática, Salles não se escraviza à metáfora e mitiga o discurso oral favorecendo
o cinematográfico, na opção por imagens que deem conta
do seu mundo e não do mundo exterior e anterior ao filme. O branco do
amplo apartamento minimalista é uma imagem-espaço que reitera um
estado de coisas de suspensão, de abandono involuntário de Gabriel e
desespero do pai. O apartamento, em síntese, é a própria construção
enunciadora da fita, pois Gabriel tenta preencher o seu branco (com TV,
guitarra) e encontrar algo que dê identidade àquele espaço e ao pai misterioso.
Da busca, descobre mais vazios alvos e solidão. O forte do longa
é, justamente, o drama do reencontro e a materialização da imagem
do pai para o filho, este a construindo aos pedaços, em estranhos e curtos
encontros. A imagem e o papel consolidam-se para Gabriel somente
quando o mesmo tira uma foto Polaroid do pai morto – uma última
imagem, conclusiva, nada totalizada, e também dúbia, com Beto em
algumas manchas de sangue, sem furo de bala. Murilo Salles avista
aqueles anos com olhar tão retrospectivo quanto interado.
Julia Mariano, diretora dos anos 2000, também observa o passado, mas com
distanciamento, em seu Projeto 68. O filme alterna imagens do desfile de
7 de setembro de 2007 e, graças a um riquíssimo acervo de imagens, traz
de volta o contexto dos protestos estudantis de 1968, que culminaram na
Passeata dos Cem mil, em 26 de junho. Além da alternância que mostra o
empenho da reação politizada da juventude de 1968 em oposição ao marasmo
dos jovens de 2007, o grande sentido deste documentário está na
manipulação das imagens estáticas e móveis, com inserções de trilhas sonoras
e áudios da época, conduzindo o filme ao desfecho em que chama
a atenção para o fato de grande parte dos arquivos da ditadura militar brasileira
permanecerem fechados. De certo modo, entre o atual exercício de
manipulação de algo dado e o exercício de construção feito por Salles em
1984, Projeto 68 retoma o comentário feito por Nunca fomos tão felizes
sobre a rarefação da experiência humana e de sua memória no Brasil.

* Crítico de cinema, atualmente redator fixo da Revista Cinética e colaborador
em publicações como Folha de S.Paulo. Já fez curadoria de mostras e ministrou
cursos de cinema.

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