No início da década de 90, Fernando Collor, primeiro Presidente eleito pelo voto popular depois de 25 anos de regime de exceção, inicia seu governo promovendo o Plano Brasil Novo (conjunto de medidas para o combate da inflação). Os efeitos dessa política econômica são o ponto de partida de " Terra Estrangeira" , filme de Walter Salles e Daniela Thomas. As perspectivas de um futuro incerto levava centenas de brasileiros a procurar uma única saída para a crise nacional, o aeroporto. E este foi o caminho que Paco, personagem de estréia de Fernando Alves Pinto, percorreu. Após o anúncio do Plano Collor ele vê a vida de sua mãe, Manoela, uma costureira espanhola que sonha em rever sua terra natal , destruída e, sem dinheiro, aceita entregar um pacote misterioso em Lisboa em troca do custeio de sua viagem. Ele perde a remessa e segue em fuga para a Espanha. Como que condenado a um constante deslocamento e sem qualquer esperança, o personagem de Paco permanece à deriva. Um exemplo perfeito dos orfãos de uma nação que aparentemente nunca irá acolhê-los. A trilha sonora de José Miguel Wisnick e a belíssima fotografia em preto e branco de Walter Carvalho contribuem para o clima noir que percorre todo o filme.
Filme do Programa 19
Tempo total aproximado do programa: 100 minutos.
Crítica
Exílio na terra do cinema
Carlos Alberto Mattos
Quando Terra Estrangeira foi realizado, o Brasil estava sem cinema e sem ?pai?. Tomava o país uma sensação de orfandade, de barco à deriva. Tínhamos virado uma nação de emigrantes, porto de saída para um exílio que não era mais o político da ditadura, mas o do desencanto de almas perdidas e sonhos adiados. Walter Salles e Daniela Thomas, depois de morarem no exterior, faziam o caminho inverso: fixavam carreira no Brasil e partiam em busca de uma identidade para o cinema brasileiro. Fizeram um filme sobre e contra o vácuo.
A relação com Portugal e Espanha, matrizes colonizadoras, sinaliza esse desejo contraditório de evasão rumo às origens. Alex e Paco saem em busca de si mesmos e encontram a terra do cinema, esse fim-de-mundo sem raízes onde se pode deslizar à vontade e trocar de gênero como quem troca de estrada. Eles são crianças que saem de casa para brincar de adultos no país do cinema, empunhar armas, correr perigo e fazer poesia ao mesmo tempo. Em lugar da clássica rebeldia, apenas o abandono, uma vaga disposição para "enfrentar a ira do trovão". Igualados em suas perdas e na sensação de não pertencer a lugar nenhum, Paco e Alex têm o movimento contínuo como único destino. São puro cinema, sem lenço nem passaporte.
Terra Estrangeira é um filme cheio de sotaques ? não apenas lingüísticos, mas também cinematográficos. No princípio, é um drama naturalista centrado no cotidiano das personagens. Aos poucos evolui para o inferno existencial, na medida em que Paco e Alex se deslocam de suas bases. Mas de repente é um filme de gangster, e logo em seguida um road movie romântico e desesperado à maneira de Nicholas Ray. Todas essas "línguas" se encontram apenas no estilo sofisticado e coeso de enquadrar, iluminar e montar as imagens.
Com seus sotaques ora de teatro, ora de videoarte, ora do neo-noir pós-moderno, Terra Estrangeira ajudou a tornar o cinema brasileiro mais contemporâneo em sua época. Ao discurso nacional-popular do Cinema Novo contrapôs uma novíssima pauta internacional-fina sem, contudo, abdicar da reflexão sobre a condição brasileira. Enquanto o termo ?terra? evocava uma constante em filmes de Glauber Rocha, o adjetivo ?estrangeira? apontava para as idéias de exílio, alteridade e globalização.
O filme antecipou elementos que se tornariam freqüentes na obra de Walter Salles. Entre eles, a ausência do pai, a inversão da imagem da Pietá (que voltará em Central do Brasil), a estrutura do road movie e a presença simbólica do mar e da água (O Primeiro Dia, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta, Água Negra).
Apesar do desfecho trágico, a noção de redenção tampouco está ausente, aqui sob a forma de uma crescente aproximação entre Brasil e Portugal. Esses espaços, inicialmente confinados por letreiros, vão perdendo distância pelas justaposições da montagem, a música do violino e imagens poéticas como a das fotos ?navegando? na água do banheiro. É por meio da linguagem do cinema que Terra Estrangeira reconstrói pontes e sutura o vácuo.