Destinado ao público adulto, este programa
reúne dez curtas-metragens de animação e
apresenta trabalhos concluídos entre 1988
e 2008, em sete estados do país. Realizados
com técnicas diversas — da animação
mais tradicional à computação gráfica —,
os filmes versam sobre temas sérios como
a superação da perda, o despertar sexual,
a mortalidade infantil e conflitos étnicos,
mas também entretêm com brincadeiras
audiovisuais e um curta de explícita paixão
pelo cinema. Aproveitando a liberdade inerente
à animação, os títulos aqui presentes
promovem um mergulho na imaginação do
ser humano e tratam de fatos da vida de
forma muitas vezes onírica ou até surreal.
A amostragem é rica e demonstra o ecletismo
da produção brasileira no gênero.
Filmes do Programa 199
Tempo total aproximado do programa: 87 minutos.
Crítica
Desenhos de olho nos adultos
Christian Petermann*
Esta seleção de animações brasileiras voltada para o público juvenil e adulto
forma um panorama representativo da qualidade de nossa produção na
área, variada em forma e conteúdo. O primeiro curta é Guerra dos bárbaros,
de Júlia Manta, que usa imagens de impacto para descrever conflitos durante
a colonização do Ceará, que resultam no confronto sanguinário entre brancos
e nativos. O horror ante a tragédia histórica é mostrado sem reservas.
Extrema delicadeza, por sua vez, marca o belo curta Espantalho, de Alê Abreu.
O diretor mescla imagens fixas com animação tradicional para narrar a relação
entre uma menina que mora isolada com a avó no meio do cerrado e um
espantalho. Sem diálogos, as imagens sugerem o lúdico despertar sensual
da garota, com resultado arrebatador, reconhecido por diversos prêmios.
Em seguida vem O pescador de sonhos, coprodução entre Santa Catarina e
Portugal dirigida pelo angolano Igor Pitta Simões. O diretor partiu de um poema
que escreveu em 1995 e realizou uma animação com imagens fortemente
oníricas, sobre um escritor que parte de um universo sombrio em busca de luz
e cor; depois de escaladas e quedas pelo espaço, ele redescobre a esperança.
O programa segue com De janela para o cinema, de Quiá Rodrigues, que se
transforma num desafio para cinéfilos: quem perceberá o maior número
de referências cinematográficas? Em animação stop-motion com bonecos
de massa de modelar e maquetes simples, celebridades como Marilyn Monroe,
Charles Chaplin e Grande Otelo (como Macunaíma) fazem uma brincadeira
que cita dezenas de filmes, a maioria de reconhecimento imediato. A trilha
sonora é de Ed Motta.
O jumento santo e a cidade que se acabou antes de começar, de Leo D. e
William Paiva, uma animação que utiliza uma interessante mistura de papel
e tecido, conta, à moda de um causo de cordel, como o jumento Limoeiro
veio à Terra a mando de Deus tentar salvar o homem, depois que este
sucumbiu ao capeta durante a criação do mundo. Com texto espirituoso,
simplicidade genuína e reverência ao folclore local, é um filme bem animado
neste grupo tão variado de curtas.
O programa segue com a comédia desbocada e herege Deus é pai, de Allan
Sieber, em que Deus e Jesus estão numa sessão de terapia para soltar todos
os ressentimentos acumulados em 2 mil anos. É divertido, desde que o espectador
não seja um religioso ortodoxo. O inusitado O anão que virou gigante,
de Marão, com animação muito simples, conta a divertida e absurda história
do garoto que por anos foi anão e, de uma hora para outra, virou gigante, e
como os dois extremos são ruins para a convivência social – apenas para pregar
que não é o tamanho que define a pessoa.
Terra, de Sávio Leite, é descrito pelo diretor como “um bang-bang do Terceiro
Mundo” e trabalha com colagem de imagens nervosas e riscadas, em estilo
street art. Trata-se de um conjunto visual agressivo que defende a liberdade
de expressão de qualquer indivíduo – o forte texto em off é narrado pelo ator
Paulo Cesar Pereio, que injeta um certo deboche cético à mensagem.
Para aliviar o clima, a próxima animação é uma brincadeira visual de final inesperado:
A espera, de Ernesto Solis, mistura animação gráfica com filmagem
em fotografia estilizada – desta forma, o ator Enrique Diaz chega a um hotel
isolado no meio do nada e, enquanto espera, vê uma lesma gigante e um bando
de avestruzes saltitantes; em clima nonsense e com imagens bonitas, a produção
termina com a participação do ator Matheus Nachtergaele.
Encerrando o programa, o curta Adeus traz imagens surreais e de pesado
simbolismo psicológico, apontando para a morte de milhares de crianças
por ano em países subdesenvolvidos a partir de uma criatura assustadora
que mora numa privada. Única obra deste programa concluída antes do
período da retomada de produção do cinema brasileiro (iniciada por volta
de meados dos anos 1990), este é um trabalho pessoal para o realizador
Céu D’Ellia, que o dedica à memória da irmã.
* Crítico de cinema atuante há 23 anos, colabora atualmente no Guia da Folha de S.Paulo,
na revista Rolling Stonee no programa Todo Seu(TV Gazeta/SP), além de ministrar palestras,
cursos e workshops e ser curador do festival Cine MuBE – Vitrine Independente.