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Curtas infantis 4

Programa 205
Curtas infantis 4Ampliar Foto do Programa 205
Classificação
Livre
Temas
infância, roça, cidade
Séries
· Da primeira idade à adolescência


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A infância é um tempo de inauguração de sensibilidades.
É quando se desenham na mente
humana noções como pertencimento e interatividade.
É também quando se aprende a
reconhecer limites e a maneira de superá-los.
Um pouco de tudo isso está tratado nesta seleção.
Eles vêm de distintas regiões e colocam
em cena um país diversificado. Os heróis destes
curtas-metragens são meninos e meninas,
falando nos muitos sotaques brasileiros e
inventando soluções engenhosas para os problemas
da vida. Mas os dilemas e descobertas
vividos por seus personagens não distinguem
a roça da cidade grande, o litoral nordestino
do interior gaúcho. Seja onde for, a criança é
um tesouro de dramaturgia, bastando ser sensível
para perceber e representar na tela. Os
filmes trazem, ainda, uma variedade de linguagens,
ritmos e cores que traduz a pluralidade
do cinema brasileiro contemporâneo. Neste
programa as crianças verão um Brasil diferente
do que prevalece na grande mídia, e assim
poderão ver melhor a si próprias.


Este programa é fruto da parceria firmada entre a Programadora Brasil e a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.



Filmes do Programa 205


Tempo total aproximado do programa: 92 minutos.

Crítica


Contos da primeira idade
Carlos Alberto Mattos*

A relação entre irmãos é um campo fértil para a representação de impasses
típicos da infância. É uma espécie de campo minado, onde tanto pode
florescer o companheirismo quanto explodir a rivalidade. Quatro dos oito
curtas-metragens deste programa focalizam duplas de irmãos confrontadas
com sentimentos complexos que eles precisam decifrar.
No gaúcho Gol a gol, um aluno que está saindo da escola tem de optar
entre sua própria vaidade e os deveres para com o irmão menor.
Enquanto vive seu rito de passagem da adolescência, Gus faz um balanço
íntimo sobre o que deve levar para o resto da vida. A decisão será
tomada, bem de acordo, numa quadra de futebol. Vale reparar a espontaneidade
dos atores-mirins e a forma como o filme concentra diversos
subplots numa história coesa.
Também do Rio Grande do Sul vem Guido e Gaspar, pequeno conto
moral sobre inveja e arrependimento. Guido não tem a menor paciência
com o irmão mais novo. Chega a criar artimanhas para prejudicá-lo
nas disputas afetivas familiares. Mas a doce insistência do pequeno Gaspar
conduz o mano a repensar suas atitudes.
A família roceira de A menina espantalho tem um código rigoroso: meninos
são para estudar, meninas são para costurar e plantar. Mas a esperta
Luzia não está disposta a aceitar essa regra. Para convencer o irmão
a ensiná-la a ler, ela vai usar as fantasias da imaginação e colocar o
medo infantil a seu favor. Este curta se destaca pelo roteiro engenhoso
e as belas imagens do interior mineiro.
O quarto filme sobre irmãos é outro gaúcho, As férias de Lord Lucas.
Ao perder a companhia da irmã mais velha, que começa a namorar,
Lucas prepara planos ardilosos para reconquistá-la, inspirando-se em
gibis de caça-vampiros. Aprender a crescer torna-se assim objeto de
uma aventura que vai desembocar na realidade. Um filme de estilo ágil
e técnica caprichada, que usa muito bem a interação das linguagens de
suspense, dos quadrinhos e do filme de família.
Dois dos títulos foram produzidos no Ceará e brindam a plateia com uma
poesia delicada. Águas de Romanza mostra uma avó empenhada em satisfazer
o desejo da neta de seis anos, que nunca viu a chuva. A seca climática
se soma à carência afetiva após a perda de entes queridos. Prover
um pouco de chuva para o encantamento de Romanza passa a ser uma
missão. E se a fé não dá conta do recado, resta o consolo da simulação.
O céu de Iracema é um poema cinematográfico sem palavras, mas com
uma trilha musical que “diz tudo”. Um menino e uma menina se engajam
num duelo de pipas até a queda de ambas levar seus donos a um
princípio de aproximação. O curta é uma variação brasileira do clássico
francês O balão vermelho, sendo que a corrida das crianças desvela,
com impacto surpreendente, a especulação imobiliária em Fortaleza.
Em breve, diz o filme nas entrelinhas, não mais haverá céu para pipas.
O aprendizado do mundo é o tema dos dois curtas paulistas desta seleção.
A pequena protagonista de Emília escreve um diário é uma menina
de verdade, filha de uma cantora da periferia paulistana. Emília aprendeu
cedo a escrever e anota para nós o monte de outras coisas que tem
aprendido para tocar sua vidinha miúda. Já o personagem-título de
Ernesto no país do futebol tem o azar de ser um menino argentino
vivendo no Brasil em plena Copa do Mundo. Mas Ernesto vai encontrar
a saída através da paixão binacional pela bola. Um filme divertido e estimulante

sobre aceitação e espírito esportivo num sentido amplo.
* Crítico e pesquisador de cinema, autor de livros sobre os cineastas Walter Lima
Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky, Maurice Capovilla e
Vladimir Carvalho.

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