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Bonitinha, mas ordinária

Programa 219
Primeira das três adaptações ao cinema da genial peça de Nelson Rodrigues, Bonitinha, mas ordinária é a mais fiel ao texto original e a que mais se concentra nos dilemas éticos do protagonista – um rapaz dividido entre a possibilidade de enriquecimento fácil por meio de um casamento de conveniência e a fidelidade aos seus sentimentos por uma mulher da mesma classe social. Dirigido por J. P. de Carvalho (Billiy Davis), o filme preserva o fraseado inigualável de Rodrigues e abre espaço para grandes interpretações de Jece Valadão, Odete Lara e Fregolente.

Filme do Programa 219


Tempo total aproximado do programa: 101 minutos.

Crítica


UM RASKOLNIKOV NO SUBÚRBIO CARIOCA
Ricardo Calil*

Bonitinha, mas ordinária (1962), genial obra teatral de Nelson Rodrigues, foi
adaptada ao cinema três vezes: primeiro, por J. P. de Carvalho, em 1963,
depois por Braz Chediak, em 1981, e finalmente por Moacyr Góes, em 2009.
A adaptação original é aquela que explora menos os aspectos ensacionalistas
do texto e se concentra mais nos conflitos éticos do protagonista.
Edgard (Jece Valadão, também roteirista e produtor do filme) é um ex-contínuo que batalha para fazer carreira em uma empresa de seguros e não morrer na pobreza como seu pai. Ele é apaixonado por sua vizinha Ritinha (Odete Lara), uma professora que sustenta a mãe louca e as três irmãs.
Certo dia, Edgard recebe uma proposta indecente do inescrupuloso Peixoto, genro do Dr. Werneck (Fregolente), o dono da empresa onde ele trabalha. O patrão quer que ele se case com sua filha Maria Cecília (Lia Rossi), que foi estuprada por três negros e que, para os padrões da época, não poderia ter um casamento convencional, por conta do escândalo de sua impureza.
A princípio, Edgard recusa a proposta. “Eu não sou como Peixoto!”, ele garante. Então o Dr. Werneck lhe dá um cheque de 5 milhões de cruzeiros
e pede para rasgá-lo se não mudar de ideia. “No Brasil, todo mundo é Peixoto”, retruca o patrão. E aí, nessa frase, Nelson Rodrigues introduz a questão central de Bonitinha, mas ordinária: os princípios podem resistir às provações?
Rodrigues se vale de outras referências para reforçar o dilema do rotagonista,
indeciso entre o enriquecimento fácil pelo casamento e a fidelidade aos sentimentos por uma jovem de sua classe social. Um exemplo: Peixoto chama Edgard de Raskolnikov, o miserável protagonista de Crime e castigo (1866), de Dostoiévski, que matou uma usurária a machadadas com a intenção de usar o dinheiro para fins nobres. Para Peixoto, matar por dinheiro ou casar por dinheiro se equivalem. Por melhor que seja a causa, o sujeito está se vendendo.
Outro exemplo: o título alternativo de Bonitinha, mas ordinária é Otto Lara Resende, a quem Rodrigues atribui a frase “O mineiro só é solidário no câncer”, que Edgard gosta de repetir. É outra maneira de colocar o mesmo problema: o ser humano seria solidário apenas em situações extremas; mas, no resto do tempo, impera o salve-se quem puder.
Enquanto as adaptações cinematográficas posteriores dão mais peso às
perversões sexuais (com uma evidente fetichização da cena do estupro),
a da J. P. de Carvalho prefere focar na provação moral de Edgard – que
chega ao nível máximo quando ele descobre que as inocências de Ritinha
e Maria Cecília são, na verdade, farsas bem construídas. Mas, para Edgard, a revelação da verdade não será o caminho para a tragédia – como é comum na obra de Rodrigues –, mas para a libertação.
A fidelidade ao texto talvez possa ser explicada por uma questão de proximidade. A adaptação foi lançada apenas um ano depois da estreia da peça nos palcos cariocas, e Jece Valadão era então cunhado de Nelson Rodrigues. O grande respeito a Nelson Rodrigues é, de certa forma, a virtude e a limitação deste Bonitinha, mas ordinária. De um lado, a opção tolhe arroubos maiores de invenção por parte do diretor. De outro, preserva a essência da obra e o fraseado inigualável de Nelson. E também abre espaço para que brilhem grandes atores como Valadão, Fregolente e Odete Lara.

(*) Crítico de cinema da Folha de S.Paulo, títular do blog Olha Só, no Portal iG, repórter especial da revista Trip e codiretor do documentário Uma noite em 67.

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