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Mutum e rio de-janeiro, Minas

Programa 229
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· Universo literário


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Neste programa, curta e longa-metragem se complementam como traduções audiovisuais da obra do escritor João Guimarães Rosa e do
retrato que ele elaborou das gentes e paisagens do sertão mineiro. O curta Rio de-janeiro, Minas (1991) reconstitui o encontro no porto de Rio de Janeiro dos protagonistas do romance Grande sertão: veredas, Riobaldo e Diadorim, que rumam para o rio São Francisco. Já o longa-metragem
Mutum (2007) parte do capítulo de mesmo nome do livro Campo geral e
apresenta Thiago, um garoto de dez anos cujo ponto de vista define como o espectador vê a realidade de sua família isolada no sertão.
Em comum, os filmes buscam na poesia e no silêncio os segredos da vida.

Filmes do Programa 229


Tempo total aproximado do programa: 99 minutos.

Crítica


O SERTÃO MINEIRO DE GUIMARÃES ROSA NO CINEMA

Christian Petermann*

A literatura de João Guimarães Rosa (1908-1967), um dos mais importantes
escritores da língua portuguesa, é rica na musicalidade das palavras,
na poesia das imagens e na construção dramática dos silêncios,
sejam estes do sertão árido e impiedoso que cerca os personagens ou
de seu universo interior. Suas obras são de difícil tradução audiovisual.
Duas tentativas bem-sucedidas, porém, estão inclusas neste programa,
a começar pelo curta-metragem Rio de-janeiro, Minas, de Marily da
Cunha Bezerra, autora também do roteiro, que divaga sobre o primeiro
encontro entre os jovens Riobaldo e Diadorim.
O pensamento íntimo de Riobaldo é narrado em off pelo ator José Mayer.
Sua voz grave costura as belas e lânguidas cenas protagonizadas pelas
atrizes Nanna de Castro e Cristina Ferrantini, opção que insinua a indefinição
dos papéis sociais entre os personagens. O texto apresenta o
espanto ante relação tão diferente, tão inédita naquele cenário rústico.
E o tempo lento e os muitos silêncios – “o silêncio é a gente mesmo
demais”, como é dito – são costurados pela inspirada trilha sonora da
cantora e violonista Badi Assad. O curta conquistou o prêmio de melhor
fotografia (de Kátia Coelho) na Jornada Internacional de Cinema da
Bahia, em 1994.
O protagonista de Mutum é ainda mais novo, chama-se Thiago e tem
dez anos de idade. Ele mora com os pais e o irmão mais novo, seu único
amigo, em uma região isolada do sertão de Minas Gerais conhecida
como Mutum, que quer dizer tanto mudo quanto o nome de um pássaro
negro que só canta à noite. Através do olhar do garoto, enxerga-se
o mundo adulto, pontuado por violência, traições… e silêncios. Thiago
terá de enfrentar uma realidade que está prestes a mudar. A diretora e corroteirista
Sandra Kogut (do documentário pessoal Um passaporte húngaro)
leva a câmera (do talentoso diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr.) a
flanar por um cenário impiedoso e triste. Os fatos são ríspidos, mas a
cineasta traduz em imagens e sons a percepção lúdica de Thiago. Por
esse filtro de ingenuidade (que será perdida), a obra adquire certa leveza.
Um dos principais trunfos do filme é a escolha dos dois atores mirins
não-profissionais: Thiago da Silva Mariz carrega bem em seu rosto carismático
o fardo de conduzir a história e é coadjuvado por Wallison Felipe
Leal Barroso como o irmão Felipe. Ambos injetam espontaneidade e
verdade às atuações, o que é imprescindível para conquistar a empatia
do espectador e fazê-lo mergulhar no ritmo particular da obra. E em
um elenco repleto de não-atores, os poucos profissionais que marcam
presença são, por exemplo, João Miguel como o pai, Luiz Carlos Vasconcelos
como Seu Aristeu e Flávio Bauraqui como Seu Deográcias.
Sandra Kogut não fez concessões para armar com fidelidade a poesia
de Guimarães Rosa, e a sinceridade da empreitada transparece em um
filme de beleza ímpar, mesmo se por vezes cruel. Entre os prêmios que
o longa conquistou, estão o de melhor filme no Festival do Rio de 2007
e uma menção especial no Festival de Berlim, no ano seguinte.
Com estes dois trabalhos, o escritor não tem motivos para se revirar no
túmulo.
* Crítico de cinema atuante há 25 anos, colabora atualmente no Guia da Folha de
S.Paulo, na revista Rolling Stone e no programa Todo Seu (TV Gazeta/SP).

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