Futebol, a paixão nacional, sempre foi tema de constante interesse do público e dos cineastas brasileiros. Aqui apresentamos quatro ficções que abordam o assunto com leveza e humor, destacando Os Fiéis (diversos prêmios no Festival Brasileiro de Cinema Universitário 2003) e o clássico Perigo Negro, dirigido por Rogério Sganzerla. É cinema na rede e bola na tela!
Filmes do Programa 23
Tempo total aproximado do programa: 71 minutos.
Crítica
O Futebol em Curta-Metragem
Newton Cannito
O futebol não é um assunto muito representado no cinema de longa-metragem brasileiro. Mas na cinematografia de curta-metragem há vários exemplos de bons filmes que abordam o universo do futebol. O conjunto de filmes da seleção de curtas “Bola na Tela” mostra o ponto de vista dos jogadores, dos cartolas e dos torcedores.
Comprometendo a atuação lança seu foco sobre os jogadores. Um jogador de um time de Mato Grosso está prestes a ser transferido para o Flamengo e para garantir isso tem de jogar bem nos últimos jogos. Mas ele tem uma namorada e a atuação dele é comprometida quando transam antes da partida. A partir dessa situação básica, o filme constrói uma ótima comédia romântica sobre a relação entre amor e trabalho. O conflito se acentua e se explicita no fato de o jogador, caso seja vendido, ter de mudar de cidade e afastar-se da namorada. O diretor Bruno Bini mostra domínio do ritmo e controle na construção de sutilezas de relacionamento. Constrói elipses com competência, alterna cenas dramáticas com cenas líricas e pequenos clipes, entre outros procedimentos da narrativa clássica. Numa estrutura de comédia o filme expõe o conflito e busca a conciliação final: o casal vai junto para a grande cidade.
Perigo Negro é um curta-metragem do consagrado cineasta Rogério Sganzerla e mostra a vida de um jogador de futebol a partir do ponto de vista de um cartola. O jogador é negro e quando alguém comenta que ele é mulato, ele discorda: “Não sou mulato, sou negro”. O cartola é um personagem grotesco e mesquinho, magnificamente interpretado por Antonio Abujamra. Ele se aproveita do jogador em seu momento áureo, mas o abandona quando ele se machuca e não pode mais jogar. Outro personagem marcante é o barbeiro torcedor fanático que é visto com simpatia pelo filme e será o contraponto do cartola mesquinho. Baseado em uma história de Oswald de Andrade, Perigo Negro constrói a crítica através de personagens cômicos em diálogo com a chanchada, tal como Sganzerla costuma realizar em seus filmes.
Os Fiéis centra-se no universo dos torcedores. Três corinthianos viajam ao Rio de Janeiro em 1976 para assistir ao jogo decisivo entre Corinthians e Fluminense. Com o uso de efeitos especiais sobre fotos históricas, o filme insere os personagens no jogo real. No curta, o futebol se torna uma metáfora da vida. A traição de Rivelino que abandonou o Corinthians pelo fluminense é comparada à traição da namorada de um dos personagens. O filme tem uma estrutura de road movie e na viagem os três torcedores fiéis refletem sobre suas vidas.
Izune é outro filme que usa futebol como metáfora da vida. Um garoto erra o pênalti num jogo decisivo e perde a bola. Ele fica triste e conversa com a mãe. A partir dessa situação simples, Izune constrói uma pequena fábula sobre um garoto que tem de entender que não se aprende nada da noite para o dia.