Principal


 

A super fêmea

Programa 239
Grande sucesso à época de seu lançamento (novembro de 1973), com quase 1,3 milhão de espectadores, esta comédia erótica é um típico produto comercial adulto realizado no auge da repressão da ditadura militar, período em que certa tolerância com a nudez era usada como instrumento alegórico, como forma velada de crítica e/ou protesto. O grande apelo do filme, já explicitado no pôster, é a presença sensual da atriz Vera Fischer, Miss Brasil 1969, no auge de sua beleza e em seu primeiro papel de protagonista. Ela é contratada como garota-propaganda de uma pílula anticoncepcional para homens, lançada com uma campanha que precisa convencer o consumidor de que o medicamento não interfere em sua virilidade.

Filme do Programa 239


Tempo total aproximado do programa: 101 minutos.

Crítica


RETRATO ERÓTICO DE UMA ÉPOCA
Christian Petermann*

Assistido depois de quase quatro décadas, é transparente como A super fêmea foi concebido como produto para as massas, pensado para o sucesso. Com produção e argumento de Anibal Massaini Neto, filho do renomado produtor Oswaldo Massaini, esta é sua primeira direção de longa-metragem (só voltaria a dirigir por duas ocasiões, a refilmagem de O cangaceiro, em 1997, e o documentário Pelé eterno, lançado em 2004).
Mas seu bom faro de produtor – responsável por sucessos como Mulher
objeto (1980), de Silvio de Abreu, e Amor, estranho amor (1982), de Walter Hugo Khouri – reuniu alguns dos assuntos mais contundentes da época em um mesmo caldeirão pop de referências, na tradição antropofágica das chanchadas da Atlântida, aqui cruzada com a carnalidade das comédias italianas.
O filme é uma grande sátira ao mundo da publicidade. Uma agência precisa convencer o homem brasileiro de que a pílula anticoncepcional masculina aumenta o apetite sexual, ao contrário do que se diz. Na indecisão, eles recorrem ao seu melhor redator, o gênio Onan (Perry Salles), que cria uma campanha reunindo as três coisas de que o homem mais gosta: jogo de futebol, café e mulher. E do mito da mulher nasce a Super Fêmea. A comédia se aproveita do movimento de libertação das mulheres para criticar a clássica transformação da mulher em objeto. Entre a pura alegoria (em especial em seu final) e o pastelão mais básico, o humor do longa-metragem registra a
ingenuidade perdida do espectador de então. E trabalha com uma direção de arte que hoje beira o kitsch absoluto.
O roteiro que Massaini coassinou com Adriano Stuart (e assistência de Lauro César Muniz) traça referências claras a dois grandes sucessos do cinema internacional de então: Vera Fischer protagoniza um ensaio de fotografia lembrando Barbarella (1968), a clássica e sexy personagem de Jane Fonda, e Sergio Hingst interpreta uma sátira do Don Corleone de Marlon Brando, de O poderoso chefão (1972), com direito ao famoso tema musical composto por Carmine Coppola. O filme resume assim muitas das manias daquele momento, em termos de gírias, gostos e comportamentos. Este foi o trabalho que apresentou Vera Fischer a Perry Salles, seu marido por muitos anos. Mas o elenco inclui muitos outros atrativos: o saudoso veterano Walter Stuart personifica Oscar Mizinhas, o divertido fabricante de preservativos que perde espaço com a nova pílula; o cantor e compositor Adoniran Barbosa comparece como seu alterego, o malandro paulistano Ernesto (de Samba do Ernesto); o autor de novelas Silvio de Abreu interpreta um funcionário bem afetado da agência de publicidade; o comentarista Décio Piccinini, na ativa até hoje, dá
uma de Silvio Santos diante das câmeras da Rede Globo; e, por fim, há
participações importantes de Georgia Gomide e John Herbert, dois grandes atores que faleceram com diferença de dias no começo de 2011. A beleza exuberante de Vera Fischer é bem usada como fachada para brincar com o ufanismo patriótico que tomara conta do Brasil depois da Copa do Mundo de 1970 e da pesada investida dos militares, até então no poder. Além de apresentar o país como o “campeão mundial da fertilidade”, a comédia se encerra com a execução na íntegra do hino Pra frente, Brasil, um reflexo da compreensão de mundo disparatada dos cidadãos brasileiros da época. Uma década depois, no filme homônimo de Roberto Farias, o tema seria reapresentado de maneira contundente em um novo contexto político.

* Crítico de cinema atuante há 25 anos, colabora atualmente no Guia da Folha de S.Paulo, na revista Rolling Stone e no programa Todo Seu (TV Gazeta/SP).

Comentários deste programa

Para comentar sobre o filme, selecione abaixo:

Comentários deste programa

[Comente sobre o Programa, clicando aqui.]

             
    © Programadora Brasil 2012  |  Tecnologia e Desenvolvimento Rivello.net