É natural pensar que samba e cinema brasileiro combinam. Estes quatro curtas retratam personagens reais da história do samba, de forma ficcional. Começamos pelo pretenso momento em que Donga cria ?Pelo Telefone?, considerado o primeiro samba de todos os tempos; passamos por dois sambistas da mais alta grandeza, Moreira da Silva e Noel Rosa; para acabar na famosa rixa do último com Wilson Batista. Câmera na mão e samba no pé.
Filmes do Programa 24
Tempo total aproximado do programa: 75 minutos.
Crítica
De Quantas Histórias o Samba é Capaz?
Marcos Pierry
Algumas recorrências saltam à vista nos quatro curtas deste programa. Despachos de macumba, iguarias afrobaianas, times de futebol carioca, o mito do malandro, consumo e ode irrestrita ao álcool, referência à prostituição sem um filtro moral, o Rio de Janeiro, sobretudo o bairro da Lapa, e até a escalação do elenco. Há ainda (boa) música à vontade. Tudo isso para tematizar, de quatro formas diversas, o samba, ritmo e gênero principal da música brasileira, matriz expressiva que responde, sozinha, por um grande bocado de nossa cultura.
Nada mais natural, portanto, que o samba, uma vez presente no imaginário coletivo, renda de tudo, torne-se um microcosmo da terra brasilis, para ficar nos jargões. Mas talvez, o elemento de maior utilidade em um possível cotejo entre as obras em questão seja o sentido de homenagem, que as percorre em diferentes graus. Temos em Do Dia em que Macunaíma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata Mudando o Rumo da nossa História de Sérgio Zeigler e Vitor Ângelo, e em Com que Roupa?, de Ricardo Van Steen, a clara mensagem de cineastas que desejam prestar tributo a fatos marcantes, recompor biografias tendo a fidelidade como critério. Ainda que no trabalho da dupla Zeigler e Ângelo a fantasia com a História junte Tia Ciata, anfitriã do primeiro samba gravado (Pelo Telefone), Gilberto Freyre, Mário de Andrade e seu emblemático personagem Macunaíma, Pixinguinha, Sinhô, Donga e até o próprio Exu na mesma roda de samba.
Cabe a Donga o mérito do pioneirismo por Pelo Telefone (1916), o que a cartela que encerra o curta metragem referencia com todo o zelo. Fica, então, a pergunta: porque Mauro de Almeida, tido como co-autor da canção, fica esquecido nesse filme de resgate? Os outros dois títulos escapam do limo, sempre traiçoeiro, da reconstituição histórica, ao subverter as supostas homenagens desde o ponto de partida. Não à toa são os que dialogam de modo mais inventivo com a tradição do samba, e ao mesmo tempo expõem, sem modéstia a fagulha criativa na elaboração cinematográfica.
Operação Morengueira, de Godô Quincas e Chico Serra, traz o espírito de Moreira da Silva (1902-2000) dando uma força ao herói bebum, rival de Mr. Clint, caubói que impõe a lei seca na Lapa dos anos 30 (?). Experimentação na fotografia (granulações e câmera na mão), interpretações pra lá de descontraídas, Ivan Cardoso e Jards Macalé. Precisa dizer mais? Talvez, apenas, que há humor de sobra em Operação.
E pode-se afirmar o mesmo de Polêmica, o quarto curta, dirigido por André Luiz Sampaio, que se destaca pela metalinguagem e também se apresenta calibrado de irreverência amarrada à flagrante inspiração no cinema marginal brasileiro dos anos 1960/70.