Nos filmes deste programa são as crianças que fazem acontecer. As produções têm isso em comum, mesmo com estéticas variadas e em cenários brasileiros tão diferentes uns dos outros. Assim, no interior alagoano, a
menina Lia corre atrás do sonho de ir à festa com um vestido novo. Na Amazônia, uma pequena índia busca alcançar a Lua, lançando-se ao seu reflexo nas águas, em releitura de grande intensidade poética do mito guarani. Nos canaviais, uma jovem cuja mula que empacou faz inusitada aliança com um menino da cidade. Em São Paulo, uma menina faz da própria sombra sua melhor amiga. No litoral baiano, um jovem catador de cajus usa
seu carrinho de mão para um carreto muito especial e solidário. E em uma grande cidade do sul, um menino muito diferente dos outros não abre mão de ser quem é. São curtas-metragens que vão emocionar, divertir e... dar o que falar!
Este programa é fruto da parceria firmada entre a Programadora Brasil e a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.
Filmes do Programa 249
Tempo total aproximado do programa: 81 minutos.
Crítica
UM PÉ NA TERRA, OUTRO PÉ NO CÉU
Neusa Barbosa*
Proximidades temáticas e estilísticas agrupam os curtas-metragens deste programa, que faz uma criativa ponte entre a fantasia vigente no mundo infantil já projetando escolhas do mundo adulto.
Em três deles, vêm do mundo adulto as injunções que se projetam sobre as crianças, no caso, a necessidade do trabalho delas num contexto de relativa necessidade econômica: Um vestido para Lia, de Hermano Figueiredo e Regina Barbosa; Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hughes; e A mula teimosa e o controle remoto, de Hélio Villela Nunes. Se, por um lado, essa injeção de realidade no ambiente infantil acarreta conflitos e limites para a sua liberdade – como a falta de um vestido novo de festa para Lia (Fabrícia Avelino), a filha da costureira super-ocupada (Diva Gonçalves); a ausência de lazer para o menino carreteiro (Ronaldo Batista dos Santos) e o rapazinho-peão (Ícaro Teixeira) da fazenda de A mula teimosa... –, há notável habilidade na trama dos três roteiros para afirmar a resistência de cada um de seus pequenos protagonistas ao não permitir o puro e simples apagamento de seus sonhos. A discreta – ou nem tanto – teimosia de cada um deles determina caminhos para uma negociação que preenche o fluir de cada história com nuanças de humor e poesia, tornando cada uma delas extremamente agradável, sem abrir mão da inteligência.
O contraste marca cada uma dessas três histórias. Em Um vestido para Lia, chocam-se a realidade econômica e o sonho vaidoso de brilhar na festa da cidadezinha de uma quase adolescente, afinal amadurecendo para entender que nem tudo que parece novo o é tanto assim. Em Carreto, a vida opaca do menino trabalhador que descobre a arte contrasta com a imaginação no universo secreto de uma menina deficiente física – e a maestria deste filme está igualmente em equilibrar esse sutil jogo de carências, dispensando um desnecessário discurso piedoso. Em A mula teimosa..., o confronto inicial opõe o menino rural e o menino da cidade, o empregado e o filho do patrão,
finalmente cedendo lugar a uma troca de experiências – e de domínio das respectivas ferramentas e tecnologias – que resulta em uma visão mais colaborativa e de mútuo proveito e diversão entre os dois. Como demonstra o final de impacto humorístico que fica na memória.
O humor marca irresistivelmente a trajetória do Garoto barba, de Christopher
Faust, acompanhando as aventuras de um menino precocemente barbado (Vitor Steinhaus) e imprimindo leveza e sátira social nos desdobramentos da situação, sem esquecer de dar um ligeiro puxão de orelhas na suposta lógica dos adultos. Cores fortes e contrastadas delimitam esse universo meio surreal, característica que se repete na direção de arte do curta A sombra de Sofia, de Flavia Thompson, em que, em um cenário claro e escuro que lembra muito o teatro, desenvolvem-se as curiosas brincadeiras da imaginativa Sofia (Rafaela Mariane) com a própria sombra.
A jornada mais radical na imaginação, no entanto, pertence à indiazinha Naiá (Liviane Arã Mirim de Lima), que protagoniza Naiá e a Lua, de Leandro Tadashi, materializando, ao mesmo tempo, os riscos de tomar a vida com as próprias mãos e a belíssima lenda que sustenta o poético roteiro. Dá-se aqui um inteligente uso da animação, baseada na iconografia da arte indígena.
(*) Crítica de cinema, edita o site Cineweb e colabora com a revista Bravo!, agência Reuters e portal UOL. Autora dos livros Gente de cinema – Woody Allen e Fernanda Montenegro – A defesa do mistério.