Principal


 

Histórias do cinema brasileiro 3

Programa 253
Os seis títulos deste programa oferecem uma pequena amostra da história do cinema brasileiro, mas uma grande demonstração da sua diversidade. Os curtas-metragens iluminam aspectos pouco conhecidos da nossa cinematografia, dos chamados “filmes de cavação” realizados em Pernambuco no início do século passado aos cineastas ambulantes que exibiam filmes mudos em colônias japonesas. De adolescentes apaixonados por Leila Diniz no interior de São Paulo a um catador de papel que construiu uma sala de exibição com material recolhido no lixo. São seis declarações de amor ao cinema – não só dos personagens focalizados, mas também dos diretores dos
curtas que quiseram homenageá-los.

Filmes do Programa 253


Tempo total aproximado do programa: 93 minutos.

Crítica


CINEMA PELAS BEIRADAS
Ricardo Calil*

Ainda que abordem apenas pequenos fragmentos de uma longa história, os
seis curtas-metragens reunidos neste programa conseguem dar conta da difícil tarefa de jogar luz sobre a enorme diversidade do cinema brasileiro. São
filmes que apontam para aspectos pouco conhecidos da nossa cinematografia,
em geral cons truídos à margem das correntes hegemônicas de cada período.
Em um programa como este, faz sentido analisar os títulos pela cronologia dos eventos que eles abordam. Portanto, comecemos com Janela molhada (2010), de Marcos Enrique Lopes. Ao recontar a história da Pernambuco Films, produtora dos italianos Ugo Falangola e J. Cambieri que foi a pioneira do cinema no estado nordestino, o documentário consegue iluminar vários outros pontos importantes dos primeiros passos dessa nova arte no Brasil do começo do século 20.
Em primeiro lugar, o curta relembra a existência dos chamados filmes de
cavação, peças de encomenda que eram “cavadas” por seus diretores/produtores junto aos poderosos do setor público ou privado. Depois,
mostra como o início do cinema em nosso país foi em grande parte movido
pelos surtos dos ciclos regionais, como o do próprio Recife e o de Cataguases (MG). Por fim, defende a importância da preservação e restauração desses filmes do período silencioso.
Chá verde e arroz (1989), de Olga Futemma, fala também do cinema mudo,
mas aborda um fenômeno mais desconhecido que os anteriores: o trabalho
dos ambulantes de cinema que circulavam por colônias japonesas exibindo
filmes na década de 1930. Com produção extremamente bem-cuidada e belas atuações de amadores japoneses, o curta ficcional reconta essa história a partir de uma viagem pelo interior de São Paulo de um benshi – um narrador dos filmes silenciosos japoneses – e de seu assistente.
Já That's a lero lero (1994), de Lírio Ferreira (que dois anos depois codirigiria Baile perfumado – Programa 4) e Amin Stepple Hiluey, oferece um novo olhar a um episódio mítico: a passagem do cineasta norte americano Orson Welles pelo Brasil em 1942 para filmar um dos segmentos de seu longa It's all true (que só seria finalizado depois da morte do criador de Cidadão Kane). A visita de Welles era uma das obsessões de Rogério Sganzerla, que dedicou uma trilogia ao assunto, composta por Nem tudo é verdade, tudo é Brasil e O signo do caos. Ferreira e Hiluey preferiram um foco mais específico, detendo-se na breve estada de Welles no Recife. Ao imaginar uma noitada entre o americano e três intelectuais pernambucanos, a dupla de diretores ironiza o provincianismo da burguesia local. Nós somos um poema (2008), de Beth Formaggini e Sergio Sbragia, recupera um encontro histórico, mas pouco lembrado: a única parceria entre Pixinguinha e Vinicius de Moraes, para a trilha sonora do filme Sol sobre a lama (1963), de Alex Viany. O curta intercala cenas de arquivo, entrevistas e números musicais com artistas como Elza Soares, Jards Macalé, Diogo Nogueira e Céu interpretando as canções da trilha – uma combinação que já se mostrou vencedora em diversos documentários brasileiros recentes e que aqui vem embalada pela beleza da parceria desses dois gigantes da música brasileira.
Produzido por alunos de uma oficina de cinema em Marília, Os olhos não têm
cerca (2010) revela o impacto sobre três adolescentes da passagem da musa Leila Diniz pela cidade do interior paulista em 1967. Em meio à narrativa criada pelos estudantes, há um achado histórico: as fotos de Leila tomando
sol com algumas amigas em um clube local. Fato e ficção se unem delicadamente para mostrar o cinema como catalisador da memória afetiva.
Por fim, o documentário Zagati (2003), de Edu Felistoque e Nereu Cerdeira,
aborda a trajetória do catador de papel José Luiz Zagati, que construiu uma sala de cinema em sua casa, em Taboão da Serra (SP), com material recolhido no lixo. Único protagonista ainda vivo desses seis curtas analisados, Zagati de certa forma encarna o amor pelo cinema que moveu todos os personagens desse programa, dos italianos pioneiros do cinema pernambucano a Orson Welles, dos narradores do cinema japonês mudo aos adolescentes apaixonados por Leila Diniz.

(*) Crítico de cinema da Folha de S.Paulo, titular do blog Olha Só, no portal iG, repórter especial da revista Trip e codiretor do documentário Uma noite em 67.

Comentários deste programa

Para comentar sobre o filme, selecione abaixo:

Comentários deste programa

[Comente sobre o Programa, clicando aqui.]

             
    © Programadora Brasil 2013  |  Tecnologia e Desenvolvimento Rivello.net | Política de Uso do Site