A passagem do tempo e o inexorável caminho para o fim são questões que atormentam o ser humano desde que ele existe. O cinema se torna uma das mais fortes ferramentas de reflexão sobre o tema a partir do momento
em que captura um “pedaço” de tempo transcorrido, eternizando-o através da arte. Os seis curtas-metragens que compõem este programa exibem essa capacidade particular e única do cinema ao refletirem, de maneiras
distintas, sobre as questões da finitude e da impossibilidade de enfrentar o tempo que passa. São obras importantes da recente história do curta-metragem brasileiro, que tiveram passagem por festivais internacionais como Cannes (Saba), Roterdã e Nova York (Todo dia todo), Locarno (Silêncio), Havana (Dos restos e das solidões), além de ganharem
prêmios importantes em festivais nacionais, como o de melhor curta em Gramado para Olhos de ressaca e o de melhor fotografia na Jornada da Bahia (Esboço para fotografia).
Filmes do Programa 255
Tempo total aproximado do programa: 92 minutos.
Crítica
TEMPO, TEMPO, TEMPO...
Eduardo Valente*
Muitos se referem ao cinema como a “imagem em movimento”. De fato, em seu surgimento, a grande novidade em relação à antecessora fotografia era essa capacidade de fazer com que as imagens se movessem. No entanto, ao se moverem, as imagens ganharam outra dimensão que antes não possuíam: a duração. E foi aí que o cinema descobriu a sua dupla natureza, pois o movimento trazia consigo o tempo. Assim, daquilo que era a capacidade única da fotografia (eternizar um momento), passou-se a um patamar acima: o cinema eterniza a passagem de um tempo.
Neste programa de curtas-metragens, todos lidam de alguma maneira
com essa potência da imagem cinematográfica, a qual não resolve o dilema de que, mesmo capturando essa passagem, o tempo não cessa de andar. É o que vemos já desde o primeiro filme, Esboço para fotografia, no qual, através da trajetória de um personagem pelas fases da vida, vemos que agarrar o tempo que passa é também construir a própria identidade – e, no entanto, o futuro nunca para de virar passado.
Saba e Olhos de ressaca falam desta inevitabilidade que é a chegada da velhice, ambos tomando o amor e a parceria como pontos de contato com uma vida anterior. No entanto, em Saba já não conseguimos mais ver o presente, e os corpos se misturam com os objetos do apartamento, parecendo todos apontar apenas e somente para o passado (como deixa ver a imagem final do filme). Já em Olhos de ressaca, a passagem do tempo parece menos dolorosa, pois traz consigo ainda energia e alegria – mesmo
que talvez estas venham mais dos olhos de quem filma do que do mundo. Não por acaso ambos são filmes em que os diretores voltam suas câmeras para parentes diretos, em um gesto que demonstra, em si, o desejo de parar o tempo.
Em Dos restos e das solidões, lembramos que o tempo não apenas não para como que passa não só para as pessoas, e que o mundo fora de nós também envelhece e morre – indo renascer em algum outro lugar. É algo que também se evidencia no poético caminho do personagem de Silêncio, que funde passado e presente, memória e imaginação, enquanto trafega do interior para a cidade grande. O homem carrega o mundo com ele, ou este já existiria antes mesmo da sua passagem? Velha (e eterna) questão da filosofia.
Finalmente, como em um ciclo que se fecha, Todo dia todo retoma (inclusive em sua forma) a estrutura circular do primeiro filme do programa, e reafirma que o tempo que se esvai também é o tempo que recomeça. No entanto, em torno do(s) personagem(ns), é a história do mundo que não para de passar, de seguir inexoravelmente adiante. Para nós, homens, resta mesmo tentar encontrar nosso lugar nessa roda – e contar com o cinema para nos guardar um pouco disso tudo que morre em nós e à nossa volta a cada dia.
*Cineasta, crítico e editor da revista eletrônica Cinética (www.revistacinetica.com.br).