A produção audiovisual dos cursos universitários de cinema tem peso significativo no cenário do curta-metragem nacional, e reconhecimento internacional por sua excelência - vide as participações de O lençol branco e Um sol alaranjado no Cinéfondation, a competição de filmes de escola do Festival de Cannes, sendo o último vencedor do 1o prêmio em 2002. Essa produção não se empenha meramente na formação de novos profissionais para o mercado de trabalho, estando mais fundamentada no chamado cinema de autor, muito devido à liberdade temática e ao incentivo à criatividade, encontrados nas escolas de cinema brasileiras. Nesta seleção encontramos trabalhos dos cursos de maior produção e tradição.
Filmes do Programa 27
Tempo total aproximado do programa: 74 minutos.
Crítica
Curtas Universitários: A Celebração do Cinema
Fernando Veríssimo
Este programa de curtas-metragens despertará no espectador, com toda certeza, a lembrança de toda uma série de clichês que envolve a apreciação da produção audiovisual universitária: filmes imperfeitos e irregulares, com acabamento técnico limitado, que servem principalmente de exercício para que seus jovens realizadores apliquem, pela primeira vez, na prática, o aprendizado acumulado nas salas de aula. No entanto, é perfeitamente possível imaginar que aqueles que o assistirem poderão constatar, no acender das luzes, que aqueles clichês parecem bem distantes da realidade.
Pois o que se vê, no conjunto, é um apanhado de qualidade artística e técnica indiscutível, que poderia facilmente passar por obras de cineastas plenamente formados – em todos os sentidos. Não fosse pelo termo “universitários” a lhes indicar as origens e providenciar os clichês para a apreciação, os filmes aqui reunidos poderiam até, em alguns casos, ser vistos como obras (aham...) maduras.
Mas é evidente que não nos cabe aqui, à guisa de elogio, conferir uma qualidade de maturidade precoce a esses filmes que, antes de tudo, se destacam pela intensidade e energia claramente investidas em suas feituras. E é, afinal, como todo bom curta-metragista iniciante sabe, como os erros que se aprende – e o fato de que enxerguemos nesses filmes mais acertos que erros, não quer dizer que sejam casos atípicos, mas antes que muitas das qualidades que podemos observar dependem mesmo de sua natureza de exercício.
Assim, testemunhamos com prazer a total entrega dos realizadores a seus projetos, sem que se entreguem a concessões para além da própria escassez de recursos (materiais ou técnicos). Sua condição particular coloca esses cineastas numa posição privilegiada, em que o raro espaço de liberdade criativa pode encontrar o talento sem maiores dificuldades, quase que de maneira natural. Mas isso não quer dizer, é claro, que não haja uma farta dose de trabalho envolvida no processo.
Há um espaço reservado nesses filmes, como não poderia deixar de ser, para a reverência e diálogo com os mestres (do classicismo e rigor de um Ozu aos ritmos intimistas das novas correntes orientais, passando pela rebeldia e iconoclastia de um Sganzerla), quer como homenagem explícita ou como inspiração distante. Alguns temas são recorrentes, e pode-se mesmo, sem esforço, encontrar correntes diversas e muito representativas da recente produção universitária.
De todos os clichês que possam reaparecer no fim da sessão, porém, ao menos um deles é inescapável, além de muito útil e bem-vindo: a aura de celebração do cinema que exala destes filmes é absolutamente contagiante,