É fato que a música brasileira é adorada nos quatro cantos do mundo, por sua qualidade sonora e diversidade de gêneros. Neste programa apresentamos registros de alguns gêneros bastante díspares, evitando qualquer pretensão totalizadora. Vamos do enfoque etnográfico da música interiorana à influência estrangeira do punk e sua adoção como modus vivendi, para finalizar na saudável mistura eclética e contemporânea do manguebeat pernambucano.
Filmes do Programa 28
Tempo total aproximado do programa: 75 minutos.
Crítica
A Música de Cada Um.
Carlos Alberto Mattos
A aliança entre o cinema e a música popular é de aço duro na cultura brasileira moderna. Tem sido assim desde que o samba pediu passagem nos filmes dos anos 1950, cruzando os documentários musicais do Cinema Novo, o uso da música nos filmes de resistência à ditadura e até grandes sucessos biográficos recentes. De certa forma. O cinema se legitima nessas parcerias com a música e sua raiz forte na vida dos brasileiros.
Os cinco documentários musicais reunidos neste DVD dão boa medida de uma união feliz. Ao mesmo tempo, em sua diversidade, mostram que o subgênero está acima de receitas prontas. Em cada um deles, o cinema se manifesta de um jeito e a música assume um lugar diferente.
Já no primeiro som, Rua da Escadinha 162 deixa claro que sua “música” de fato é a voz de Christiano Câmara. Em seu saudosismo guerreiro, anti-moderno e deliciosamente populista, o pesquisador-colecionador cearense modula a voz ora para impor-se sobre o ouvinte-espectador, ora para seduzi-lo. O diretor Márcio Câmara, sobrinho do personagem e emérito técnico de som, explorou o ritmo e as pausas da retórica de Christiano como se trabalhasse numa composição. Temos, então, um filme de fala e música, mas onde também a fala é música.
Como se regredíssemos ainda mais no tempo interno e externo, chegamos à pré-música em Seu Minervino e a Viola Caipira. Embora o som da viola domine a banda sonora, o plano visual limita-se a descrever etapas de um artesanato rude no sertão mineiro. Da madeira bruta às minúcias sinuosas do instrumento pronto, é uma longa faina silenciosa. Pouco ou nada se fala enquanto se prepara a música que ainda vai ser.
Em Viva Volta, a música não está somente no som do trombone de Raul de Souza, mas também nas imagens. O filme de Heloisa Passos empreende uma tradução poética do som de Raul. Travellings fluidos ligam Bangu e Califórnia sob o signo comum do azul, cor reivindicada pelo artista para seus acordes. Sua voz off, aqui como indicativo de ausência, sublima o sentimento de exílio, a cisão entre o músico e seu país, que nessa viagem de regresso ele anseia por superar.
A música é apenas um dos ingredientes empregados por Pânico em SP (o filme mais antigo da coletânea) para expressar a atitude PUNK. Ela tem o mesmo valor estético das imagens sem foco, da edição sonora caótica, da recusa à narratividade ou das falas de raiva vindas não se sabe de onde/quem. O curta, assinado por um coletivo da ECA/USP, quer “desdefinir” o que seja o punk. Resta um urro de anarquia, adequadamente sem ordem e sem conceito.
O oposto dessa desconstrução é o que vemos em O Mundo é uma Cabeça. À exceção do próprio Chico Science – mais objeto que sujeito do discurso -, todos os músicos que falam para a câmera se esforçam por definir a cena manguebeat. Reivindica-se uma genealogia, enumeram-se imagens-síntese, buscam-se sentidos e expõe-se uma plataforma. No centro de tudo, os palcos e o orgulho de um movimento. A música é fonte de auto-estima e de dignidade intelectual.