Glauber Rocha, considerado o mais importante cineasta brasileiro de todos os tempos, influenciou toda uma geração subseqüente à sua morte. Nesse programa juntamos obras que tentam desconstruir o mito Glauber, mantendo-se fieis às suas proposições de linguagem e estética. Sua mãe, D. Lúcia Rocha, também é retratada, tanto como tema do documentário Abry, quanto se despedindo do filho em A Degola Fatal, num dos momentos mais registrados da história do cinema nacional.
Filmes do Programa 29
Tempo total aproximado do programa: 85 minutos.
Crítica
Retrato fragmentar do gênio do Cinema Novo
Tiago Mata Machado
Mais de 25 anos depois de sua morte, o nome de Glauber Rocha continua uma referência central no debate sobre o cinema e a cultura nacionais. Ainda que o novo cinema brasileiro, o chamado cinema da retomada, tenha convertido o legado glauberiano em uma espécie de contra-exemplo, renegando-lhe os excessos e mesmo a modernidade, o fantasma de Glauber continua a assombrar até mesmo aqueles que, de sua geração, sobreviveram.
Numa época em que o cinema nacional parece ter abdicado da missão de pensar e fabular o país, contentando-se em refletir-lhe a realidade pela superfície, a figura de Glauber não deixa de encarnar um ideal perdido da nossa arte. Mais do que a encarnação do ideal nacional-popular de sua geração, para além da política, Glauber foi um artista capaz de construir uma imagem moderna do país através de suas forças mais arcaicas, um verdadeiro criador, ainda hoje o maior de nossa cinematografia. Os filmes presentes nesta coletânea compõem um retrato fragmentar e polifônico desse grande gênio, sem pretender esgotar-lhe a complexidade. Não esgotam nem tampouco explicam Glauber, mesmo porque Glauber não se explica.
Em Memória de Deus e do Diabo em Monte Santo e Corobobó, inspirado em texto-memória de Glauber, o diretor Agnaldo Siri Azevedo incursiona pelas cidades que serviram de cenário ao clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol. Seu guia é um personagem messiânico-glauberiano encarnado por Carlos Sampaio. No rastro desse personagem acompanhamos as histórias que serviram de manancial para essa primeira obra-prima de Glauber, mas nada que diga respeito às filmagens.
De Glauber para Jirges relata as cartas enviadas pelo cineasta a seu amigo e colaborador Jirges Ristum (ator de Claro, o mais belo filme de exílio do diretor), nos anos 70. Dirigido pelo filho de Jirges, André, e montado pelo filho de Glauber, Eryk, o curta compõe um belo retrato do Glauber dos anos 70, desiludido com a política e rendido à ?rica vida, festiva e sexual, em Tupi style?. O filme termina com um singelo poema de Jirges, também morto nos anos 80, à memória do amigo: ?Quem mandou glauberocha embora antes que (eu) pudesse entender??
A Voz do Morto, de Sergio Zeigler e Vitor Angelo, recupera alguns belos momentos de Glauber, como as suas participações no programa televisivo ?Abertura?, mas esbarra, volta e meia, numa leitura um tanto ingênua da política glauberiana, aqui reduzida ao mero questionamento dos males e mazelas da sociedade brasileira. A herança glauberiana reduzida ao seu clichê político.
Em Abry, de Joel Pizzini e Paloma Rocha (filha do diretor), a personagem principal é Dona Lúcia Rocha, mãe e eterna provedora de Glauber. Espécie de filme de família submetido a uma ?montagem atômica? (conceito polifônico que Glauber criou à época de seu polêmico Di), Abry traz Dona Lúcia relatando as suas memórias no leito de um hospital, onde acaba de se submeter a uma cirurgia de ponte de safena. Um belo e inusitado álbum de família.